O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia pode ampliar o acesso de produtos brasileiros ao mercado europeu e reforçar a inserção do país nas cadeias globais, mas enfrenta resistências políticas e pressões econômicas dentro do próprio bloco europeu. A avaliação é do professor Gustavo Vieira, especialista em Direito Internacional da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), em entrevista ao programa Contraponto. Segundo ele, o tratado — negociado ao longo de cerca de 25 anos — estabelece a redução gradual de tarifas de importação ao longo de mais de uma década e cria parâmetros comuns nas áreas sanitária, ambiental e aduaneira.
A expectativa é ampliar a entrada de produtos agrícolas do Mercosul, como carne bovina, frango, açúcar e grãos, no mercado europeu, enquanto países sul-americanos passam a importar com menos tarifas bens industrializados, máquinas, medicamentos e tecnologias produzidas na Europa. O professor destaca que o acordo impõe compromissos de sustentabilidade, exigências de rastreabilidade e mecanismos de solução de controvérsias, o que tende a elevar o padrão regulatório e competitivo das exportações brasileiras.
A resistência de agricultores europeus, especialmente na França, está relacionada a fatores estruturais. Produtores rurais da União Europeia operam sob rígidas regras ambientais e sanitárias e contam com subsídios previstos na Política Agrícola Comum (PAC), o que influencia seus custos e margens de lucro. Há receio de que a ampliação das importações do Mercosul gere concorrência com produtos de menor custo, pressionando preços internos e renda no campo europeu. Também existem questionamentos sobre diferenças na legislação ambiental, no uso de defensivos agrícolas e nas exigências trabalhistas, temas que se tornaram centrais no debate político dentro do bloco.
Conflitos internacionais e impactos econômicos
A escalada de tensões envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã amplia a instabilidade geopolítica e gera reflexos imediatos na economia global. De acordo com Gustavo Vieira, conflitos no Oriente Médio afetam diretamente o mercado de energia, já que a região concentra parte significativa da produção e do escoamento mundial de petróleo.
Quando há risco de bloqueio de rotas estratégicas ou ampliação do confronto militar, o preço do barril tende a subir, pressionando combustíveis e cadeias produtivas em diversos países. Esse movimento impacta o câmbio, aumenta a volatilidade nas bolsas de valores e pode gerar pressões inflacionárias, inclusive no Brasil. O professor observa que o mercado financeiro reage não apenas a fatos concretos, mas também à percepção de risco, antecipando possíveis desdobramentos.
Ele acrescenta que o cenário atual revela uma reorganização da ordem internacional, marcada por disputas regionais, fortalecimento de blocos econômicos e maior competição estratégica entre potências. Nesse contexto, o Brasil precisa adotar postura diplomática equilibrada, priorizando o multilateralismo e a diversificação de parcerias comerciais para reduzir vulnerabilidades externas.
Para o especialista, embora o país possua economia relativamente diversificada e experiência recente na gestão de crises globais, como a pandemia, o ambiente internacional exige cautela, planejamento e atenção constante aos desdobramentos políticos e econômicos.



















































