Similitude
A Quaresma e o Ramadã são ritos que se espelham. Embora de CEPs religiosos diferentes — Cristianismo e Islamismo — compartilham uma “espinha dorsal” idêntica. Ambos são períodos de introspecção e disciplina. O propósito é a purificação: limpar a alma e praticar o autocontrole. O jejum é apenas a ferramenta, não o fim. É o lembrete de que o espírito deveria mandar na barriga, e não o contrário.
Os outros
No período, há o apelo para olhar além do próprio umbigo. O que se “economiza” com o jejum deveria virar doação. Há uma intensificação da oração e da frequência a igrejas ou mesquitas. A leitura da Bíblia e do Alcorão torna-se mais rigorosa, como se o manual de instruções do ser humano finalmente fosse tirado da gaveta.
Entre uma e outra
A Quaresma dura 40 dias, com abstinência de carne ou sacrifícios modernos, como silenciar redes sociais (o que para alguns é pior que jejum de pão e água). Baseia-se no calendário solar e culmina na Páscoa. Já o Ramadã dura um mês lunar, com jejum total (até de água) do nascer ao pôr do sol. Muda de data anualmente e termina no Eid al-Fitr, a celebração do desjejum — um banquete merecido após tanta privação.
Explicações e o sotaque de Foz
Fiz questão dessas observações porque, vivendo em Foz do Iguaçu, o Ramadã é palpável. Ele mexe com a nossa rede gastronômica, que se vira nos trinta para servir hordas de comensais assim que o sol se põe. Essa logística exige alimentos especiais e treinamento, mostrando que o respeito à religião alheia também é um motor econômico e um exercício de diversidade comunitária.
Tudo justo e misturado
Os humanos, que se esforçam tanto para parecerem diferentes, são irritantemente iguais. Quase todas as religiões celebram a purificação, o que dá uma dimensão da montanha de pecados que este mundo produz. Barbaridade! No Judaísmo, há o Yom Kippur, o “Dia do Perdão”. É o “intensivão” judaico: 25 horas de jejum absoluto para que Deus sele o destino de cada um. O foco é o perdão — com o Criador e com o vizinho, o que costuma ser a parte mais difícil.
Budistas e hinduístas
No Budismo, temos o Vassa, o “Retiro das Chuvas”. Uma literal “Quaresma Budista” de três meses durante as monções asiáticas. Monges meditam e leigos fazem promessas — parar de beber ou adotar dietas estritas — na esperança de dar um “reset” na mente. No Hinduísmo, brilha o Navaratri: 9 noites dedicadas à energia feminina de Durga. O objetivo é vencer a “negatividade interna”, simbolizada pela vitória das deusas sobre demônios. O inimigo, como sempre, mora ao lado (dentro de nós).
Jainistas
Encerro o giro pelo Jainismo e o seu Paryushana, talvez o rito mais “casca-grossa” do mundo. É barra pesadíssima. São 8 a 10 dias de jejum severo e arrependimento. Pede-se perdão a todos os seres vivos por qualquer dano, até por pisar em uma formiga sem querer. É a faxina no karma com alvejante puro. Enfim, para toda a humanidade, o “kit purificação” é padrão: tirar o alimento para dar espaço ao espírito. Uma pena que tanto sacrifício nem sempre entregue o resultado esperado na prática.
Rezam e depois aprontam
O mundo é um hospício de controvérsias. Independentemente dos ritos, a verdade é que muitos rezam com fervor e depois se juntam para explodir uns aos outros. O homem agride a si, à fauna, à flora e às dádivas naturais; o equilíbrio se perde por onde esse animal, que se julga racional, põe os pés. Não é pessimismo, é alerta: há gente que gasta os joelhos rezando enquanto arquiteta a próxima maldade.
A Campanha da Fraternidade
O tema este ano é habitação. Ouvindo Dom Sérgio de Deus Borges, bispo de Foz, refleti sobre a abissal diferença entre “teto” e “lar”. O bispo foi econômico nas palavras, mas cirúrgico no pensamento. O teto é o sonho dourado de 8 em cada 10 brasileiros; onde a vida começa e, muitas vezes, termina. Mas o que habita as famílias sob esse teto é o que realmente importa — e é aí que entra o papel (muitas vezes esquecido) das religiões.
Um sonho frágil
Por que a população de rua aumenta? Porque a vida é cruel e puxa o tapete, deixando as pessoas sem o teto e sem a dignidade. Viver é equilibrar-se no arame, como na marchinha de Carnaval. Aproveite a Quaresma, o Ramadã ou o Yom Kippur para pensar na vida. Habitar é mais que “morar”. Importante não é só pagar a luz, a água e a internet, mas entender o que você está fazendo nesse mundo. Uma boa e “irradiada” quinta-feira, 19 de fevereiro, a todos! Irradiada mesmo: sair ao sol de Foz hoje sem protetor é pedir para ser assado vivo como frango de padaria.

Rogério Romano Bonato é o autor da coluna No Bico do Corvo há cerca de 20 anos — trajetória que saltou das páginas de papel para ganhar asas eletrônicas. O jornalista atravessa o período de reflexão ancorado na força de três tradições: o Catolicismo, o Judaísmo e o Islamismo. Mesmo que a prática nem sempre alcance a perfeição, ele não desiste; afinal, resta a crença inabalável de que, entre um rito e outro, é sempre possível tornar-se uma pessoa melhor. Uma inovação, ou melhor, um convite: assistam ao programa Contraponto de óntem, quarta-feria, 18/02.




















































