O “Revés do Transporte”
Bom dia! Iniciando esta bela quinta-feira, 12/02, ainda sob o impacto do “petardo” que atravessou o asfalto de Foz do Iguaçu na tarde de ontem. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) bateu o martelo e, por unanimidade, manteve a anulação do decreto que rompeu o contrato com o Consórcio Sorriso. Na prática, a Corte entende que o rompimento da concessão não foi feito de forma válida. A decisão da Primeira Turma rejeitou os recursos da Prefeitura, confirmando o que a justiça local e o TJPR já haviam sinalizado. O imbróglio jurídico ganha novos capítulos e este colunista promete voltar ao tema em breve, detalhando os reflexos disso para o passageiro iguaçuense.
Sócios da Dívida
A encrenca jurídica do transporte começa a desenhar um cenário tenebroso para Foz. O revés no STJ não é apenas uma derrota processual; é um gatilho para indenizações milionárias que podem recair sobre os cofres públicos. A responsabilidade tem DNA: a assinatura do ex-prefeito que sacramentou a mudança. Imagine o rebuliço se a Justiça determinar a devolução das linhas para quem já fechou as portas ou se mudou da cidade. A “bagunça” está armada e deve cair direto no colo do General, com um detalhe cruel: no fim das contas, o contribuinte será o sócio majoritário dessa dívida. O prejuízo bate à porta.
Carne Soberana
Mudando de assunto e atendendo a pergunta de um leitor: Seo Corvo, se a China não quer nossa carne, sobra para nós? A lógica parece a do botequim: se a China colocou um “pedágio” de 55% de tarifa — o famoso imposto de importação proibitivo — e os EUA estão fechando o cerco com cotas que mal dão para um lanche de mortadela, o boi vai ter que ficar no pasto, certo? Sim e não. No papel, temos um choque de oferta interna. Na prática, estamos diante de uma queda de braço entre a Segurança Alimentar e a Margem de Lucro dos grandes players. Se o bife não atravessar o oceano, ele precisa cair no prato de quem ganha em Real.
A “sobra” bendita e a lei da gravidade econômica
De fato, se o Brasil não conseguir desovar o excedente para mercados alternativos (como Indonésia ou o Oriente Médio), o produto vai inundar os açougues. É a lei da oferta e procura em sua forma mais crua: quando o estoque transborda e o comprador externo some, o preço tende a beijar o chão. Mas é preciso cuidado: em economia, nem tudo que cai, chega ao bolso do consumidor com a mesma velocidade.
O risco do “boicote” e o gado fazendo Spa
O perigo é o pecuarista, diante da deflação da arroba, decidir que não vale a pena o abate. É o fenômeno do “retardamento de ciclo”: o produtor segura o boi no pasto, transformando o curral num spa bovino, esperando os preços reagirem. Isso reduz a oferta artificialmente e mantém o quilo da picanha proibitivo. O governo está tentando evitar esse “colapso de oferta” para que o mercado não vire um deserto de proteínas enquanto os frigoríficos choram as pitangas dos dividendos perdidos.
O mistério do carvão e o sócio oculto
Não adianta a carne baixar se não há como fazer o fogo. O carvão subiu junto com o bife porque a logística brasileira é movida a diesel, e o diesel é refém da geopolítica. Enquanto os gigantes brigam, o petróleo vira munição. Se os EUA apertam o cerco nas rotas comerciais, o combustível dá um salto aqui. É a matemática cruel: mesmo que a carne baixe 10%, se o custo de transporte e energia subir 15%, o preço final na gôndola continua um assalto. O frete é o sócio oculto que não come, mas leva metade do seu churrasco.
Da alcatra ao pé de frango
É meus amigos, a China não perdoa! O churrasco anda tão proibitivo que o brasileiro, mestre na arte da gambiarra, já tinha apelado para o pé de galinha na grelha. Mas não há paz sob o sol: os chineses descobriram que o nosso “pedicuro” é uma iguaria de primeira por lá e começaram a importar o pé, a unha e a canela da ave. Resultado? Até o que era barato está desaparecendo.
E o espetinho de cada dia?
E o medo do meu amigo Joãozinho do Espetinho é real: se a moda da permuta pega, daqui a pouco a gente exporta nossos pés de galinha e eles devolvem língua de pato ou ovos milenares (aqueles com cheiro de podre). Imagina a cena: o povo chegando, pedindo um espeto de língua de pato com farofa? Aí não dá, é barbaridade demais para um estômago só! O Brasil corre o risco de virar o único país que exporta o almoço e importa a excentricidade.

Cuba e o espelho do “mundão véio”
Taí o perigo do isolamento autárquico. A ilha é o laboratório vivo de quando a economia é usada como arma de guerra. Um bloqueio total em 2026 parece coisa de filme, mas é a realidade nua e crua. Washington apertou o botão do sufocamento energético: sem combustível, o turismo (a galinha dos ovos de ouro de Havana) entra em colapso e a logística de alimentos vira desespero. Onde falta energia, sobra fome. É o aviso: no tabuleiro global, ninguém é uma ilha, mesmo sendo uma.
É lição para o Brasil?
O Brasil é grande demais para ser bloqueado, mas as “barreiras técnicas” de Pequim e Washington são avisos de que a Nova Ordem Mundial não aceita amadores. Se o Brasil tiver o peito de se unir de vez aos emergentes (o bloco BRICS+), pode criar um CFC – Circuito Fechado de Comércio, trocando proteína por semicondutores e energia, sem precisar pedir benção para o Tio Sam ou para o Dragão. Mas, e a coragem política para peitar o status quo financeiro e investir na nossa própria demanda?
A tal nova ordem
Ela é celeiro ou mesa? A pergunta que fica para o leitor do Corvo é: queremos ser o “almoxarifado do mundo” que passa fome ou o país que forra o estômago do seu povo primeiro? Hoje nossa economia é viciada em exportar o filé para importar o chip. Se essa encrenca global continuar, seremos forçados ao “olhar para dentro” (a famosa substituição de importações). Se fizermos direito, a mesa melhora e o PIB sorri. Se errarmos a mão, a inflação devora o bife antes mesmo dele cair na grelha.
O veredito do Corvo
O “paredão” das potências pode ser a nossa alforria comercial. É a chance de pararmos de mandar o “premium” para fora e deixar o “acém” para o povo. Mas, para isso, o Estado precisa ter pulso firme: não dá para deixar o setor de proteína virar um cartel que prefere queimar estoque a baixar o preço para o trabalhador.
Vamos deixar para depois?
Hoje é véspera de Carnaval e o ânimo para discutir macroeconomia está baixo. Como diria o eterno Bussunda: “fala sério!”. A folia em Foz começa amanhã, mas o chão está tremendo no Nordeste. A população só vai querer saber de coisa séria na Quarta de Cinzas. Até lá, quem está “dugango-kid” — sem um tostão furado para a gelada — vai ver o Carnaval passar como um filme mudo. Afinal, folia sem verba é apenas aglomeração com suor.

Rogério Romano Bonato escreve a coluna No Bico do Corvo com exclusividade para o Almanaque Futuro e os meios eletrônicos da Rádio Cultura de Foz do Iguaçu. Como o leitor notará, há um climazinho de Carnaval! Afinal amanhã a folia começa em Foz!




















































