A crise enfrentada pela saúde pública de Foz do Iguaçu é resultado de um problema estrutural e histórico, agravado pelo crescimento populacional, pela ampliação da demanda regional e pela falta de investimentos compatíveis com a realidade atual do município. A avaliação foi feita por Kalid Omairi, presidente do Conselho Municipal de Saúde (COMUS), e pelo médico Richan Ellakis, durante entrevista ao programa Contraponto – A Voz do Povo, da Rádio Cultura.
Segundo os entrevistados, Foz do Iguaçu ficou por muitos anos à sombra de polos regionais como Cascavel, que concentram faculdades de medicina, centros de formação e maior oferta de especialistas. Com o passar do tempo, a cidade passou a exercer papel de polo regional de saúde, atendendo não apenas municípios da 9ª Regional de Saúde, mas também pacientes do Paraguai e da Argentina, o que aumentou significativamente a pressão sobre o Hospital Municipal.
Hospital Municipal enfrenta sobrecarga e falta de insumos
Kalid Omairi explicou que o aumento da demanda não foi acompanhado por investimentos estruturais no Hospital Municipal, o que resultou em déficit de leitos, equipamentos e insumos básicos. Ele destacou o crescimento dos chamados “eventos adversos”, registros feitos em prontuários médicos quando há falta de materiais, medicamentos ou equipamentos essenciais para o atendimento.
“O problema é que, mesmo quando a falha é estrutural, a responsabilidade acaba recaindo sobre o médico, que responde juridicamente pelo atendimento”, afirmou o presidente do COMUS. Diante das denúncias, o conselho cobrou providências formais da Fundação Municipal de Saúde e da gestão do hospital, com foco na melhoria da estrutura e na segurança assistencial.
Serviços sem habilitação geram prejuízos e transferências
Um dos principais gargalos apontados na entrevista é a falta de habilitação de serviços junto ao Ministério da Saúde. De acordo com Kalid Omairi, áreas como neurocirurgia, ortopedia e cirurgia geral não estão devidamente habilitadas, o que impede o repasse integral de recursos do SUS.
Como exemplo, ele citou um faturamento complementar de cerca de R$ 3 milhões realizado pelo hospital, dos quais apenas R$ 300 mil foram efetivamente pagos pelo Ministério da Saúde. O restante foi glosado por ausência de habilitação. “Sem habilitação, o ministério não paga, e o município perde recursos fundamentais”, explicou.
Alta complexidade em neurocirurgia é inexistente
O médico Richan Ellakis reforçou que Foz do Iguaçu não possui estrutura para atendimentos de alta complexidade em neurocirurgia. Casos como aneurismas, malformações arteriovenosas e cirurgias complexas de coluna exigem equipamentos específicos e serviços como hemodinâmica, inexistentes na rede pública local.
“Esses pacientes precisam ser estabilizados e transferidos para outros municípios, como Cascavel ou Curitiba, muitas vezes por transporte aéreo”, afirmou. Segundo o médico, essa realidade se repete há anos e não se trata de situações pontuais.
Federalização ou estadualização é alternativa defendida
Durante a entrevista, os especialistas defenderam que a federalização ou estadualização do Hospital Municipal poderia representar um avanço significativo para a saúde pública local. A medida permitiria ampliar o número de leitos, adquirir equipamentos de alta complexidade e fortalecer especialidades médicas.
“Seria uma forma de elevar o patamar do hospital e permitir que Foz do Iguaçu acompanhe o crescimento da própria cidade e da região”, destacou Ellakis.
COMUS registra aumento expressivo de demandas
Kalid Omairi também chamou atenção para o aumento expressivo das demandas recebidas pelo Conselho Municipal de Saúde. Em 2025, quase 100 solicitações foram registradas, número muito superior ao de 2024, quando houve cerca de 27 registros ao longo de todo o ano.
Segundo ele, o conselho tem atuado de forma propositiva, encaminhando todas as demandas recebidas e cobrando respostas do poder público. “Para que o controle social funcione, é fundamental que a população registre suas demandas. Só assim conseguimos agir”, concluiu.


















































