Impulsionado por uma procura inédita pelas chamadas canetas emagrecedoras — que ganharam as farmácias, as redes sociais e agora atravessam a fronteira rumo ao consumo informal — o tema virou preocupação de saúde pública em Foz do Iguaçu. Diante desse cenário, a Rádio Cultura convidou o cirurgião Vanderlei Martinelo Júnior para uma análise aprofundada. No Contraponto – A Voz do Povo, o médico detalhou os avanços científicos dos medicamentos à base de GLP-1, alertou para os riscos do uso sem prescrição e discutiu as consequências sociais, psicológicas e sanitárias dessa nova fase do tratamento da obesidade.
O especialista destacou que remédios como Ozempic, Mounjaro e a nova retratrutida representam um avanço histórico no tratamento da obesidade. Segundo ele, esses fármacos alcançam resultados que a medicina “nunca teve com medicamentos”, oferecendo alternativas eficazes para muitos pacientes. “Os médicos da área ficaram felizes, não ameaçados. Nosso objetivo é tratar pacientes, não operar”, afirmou. Apesar disso, Martinelo ressalta que as canetas não funcionam para todos — especialmente para pessoas com obesidade muito severa, como pacientes com 180 ou 200 quilos — e que, nesses casos, a cirurgia bariátrica ainda apresenta maior eficácia e durabilidade.
O médico alertou também para o crescimento do uso sem prescrição e para a compra de medicamentos no Paraguai. Ele explicou que muitos produtos vendidos de forma informal são transportados e armazenados sem refrigeração adequada, o que compromete completamente sua segurança. Entre os riscos mais graves, citou infecções, reações alérgicas, dosagens inadequadas e até reações anafiláticas. Mesmo quando utilizados corretamente, os GLP-1 podem causar refluxo, alterações intestinais, náuseas e possíveis efeitos no fígado — embora, em muitos casos, auxiliem na redução da gordura hepática.
Outro ponto abordado por Martinelo foi o aumento dos chamados “bebês de Mounjaro”. Segundo o cirurgião, os medicamentos da classe GLP-1 reduzem inflamação e melhoram o metabolismo, o que pode restaurar a ovulação e aumentar as chances de gravidez em mulheres que antes tinham dificuldade de engravidar. No entanto, ele reforça que não existem estudos suficientes sobre os efeitos no feto, motivo pelo qual o uso é contraindicado durante a gestação.
A realidade das cidades de fronteira, como Foz do Iguaçu, agrava parte dos problemas, afirma o médico. Medicamentos mais modernos demoram a chegar ao sistema público, o que leva muitas pessoas a recorrerem ao contrabando e à automedicação. “A população quer tratar a obesidade, mas sem acompanhamento acaba exposta a riscos desnecessários”, alertou. Martinelo enfatizou a importância de uma equipe multidisciplinar, protocolos de segurança e acompanhamento contínuo. Ele também lembrou que a cirurgia bariátrica sempre exigiu avaliação psicológica, pois envolve transformações profundas — e que o mesmo cuidado deve orientar o uso dos novos medicamentos. Para concluir, reforçou que cada organismo reage de forma diferente: “A medicina não é matemática.”



















































