O tempo move os ciclos
O Carnaval de Foz do Iguaçu pode ser lido como um mapa dos nossos ciclos econômicos. Da extração da erva-mate à derrubada da madeira, passando pela expansão agrícola, o gigantismo de Itaipu, a era dourada do “comprismo” e, finalmente, a consolidação do turismo. No início do século passado, a folia era feita de corsos — pequenos e charmosos blocos que desfilavam em calhambeques barulhentos. Depois vieram os bailes a céu aberto, com cantadores de marchinhas que, aos poucos, buscaram o refúgio dos clubes: Oeste, Country, Gresfi e Floresta tornaram-se os bunkers da alegria. Dessas agremiações, os associados transbordaram para a Avenida JK. Já nos anos 80, a rua retomou seu protagonismo com agrupamentos icônicos como a Banda Xirú-Corepi e as inesquecíveis Meninas Veneno.
Transição dos clubes às praças
A migração dos eventos para a Terceira Pista da JK, sob a batuta da prefeitura, marcou o início do desmonte dos carnavais de salão. Foi nesse vácuo que surgiram manifestações com DNA puramente iguaçuense, como a Canja do Galo Inácio. O Carnaval de Foz começou, então, a exportar uma temperatura acima da média para o paladar dos paranaenses; peregrinou pela Avenida Duque de Caxias, viu nascer o saudosismo do Carnaval da Saudade e, após alguns solavancos de instabilidade política, reencontrou seu porto seguro na Praça da Paz. Em 2025, o vento soprou a favor da descentralização, com o surgimento da Charanga da Yolanda e pequenas, porém calorosas, concentrações nos bairros.
Novo formato: a folia onipresente
É seguro afirmar que o Carnaval de Foz inaugurou um novo ciclo este ano: o das manifestações onipresentes. Além da Praça da Paz, que ganhou um dia extra, a cidade foi tomada por blocos na Avenida Brasil, Vila Yolanda, Porto Meira, Jardim São Paulo e Vila A. Destaque para as inovações no Mercado Público Barrageiro e na Itaipu Binacional. Como manda a tradição, a Canja encerrou o calendário “momístico” com chave de ouro.
Personalidades
Nesse tabuleiro, figuras como Clóvis Quadros, do Bloco Papai Urso, foram peças-chave, articulando programações paralelas e abrigando entidades como o Maracatu das Martinas e a irreverência dos Pierrôs. Ao lado de Clóvis, o incansável Joãozinho Espetinho deu o gás necessário para que a Charanga da Yolanda não deixasse ninguém parado. Já no Mercado Público Barrageiro, a pegada foi mais técnica e laboratorial, um verdadeiro ensaio para os anos que virão. O saldo? Êxito absoluto.
A coisa carnavalesca pública
Organizar o festerê cabe à Fundação Cultural. E se em 2025 a experiência não rendeu os frutos esperados, 2026 viu a poeira subir graças à pegada firme de Patrícia Iunovich. Ela assumiu o comando “em cima do laço”, mas não tremeu: costurou estratégias, apoiou os movimentos independentes e devolveu o charme da folia aos encontros públicos. Fazer Carnaval, na teoria, parece fácil, mas injetar alma e “borogodó” no ambiente requer um toque diferenciador. A “Paty” acertou a mão e o tom. O governo do General Silva e Luna agradece; enfim, um suspiro de alívio que injeta ânimo para o que virá de 2026.
Paty, a performática
A diretora-presidente da Fundação Cultural não se limitou aos predicados executivos; ela literalmente vestiu a camisa (e a fantasia). Com um figurino que oscilava entre o luxo dos antigos desfiles e o saudosismo das grandes divas, Patrícia foi uma atração à parte. Segundo as “anotações” deste Corvo, ela desfilou como Madame Xangai, Dama das Camélias, Viúva Negra (tranquilizem-se, o Cláudio está vivinho da silva!), Liberty America e até uma personificação do Ipê Amarelo. Tudo para ilustrar que a cultura, antes de tudo, é performance.

Valentina é boa de maracatu
Quem circulou pela Avenida Brasil foi brindado com a faceta artística da vereadora Valentina, figura central do Bloco das Martinas. Como puxadora de cortejo, ela mostrou que a política e a folia bebem da mesma fonte: a energia popular. É difícil medir onde termina a parlamentar e começa a foliã, mas a verdade é que Valentina mantém em ambos os terrenos o mesmo grau de irreverência. A baixinha é danada!

Rei emérito!
Título de “emérito” geralmente é coisa de papado, mas em Foz, a honraria adorna o reinado de Walmor Bonfim Maciel, carnavalesco desde o berço e dono do cetro por mais de 25 anos. A ascensão de Leo, o novo Rei Momo, causou um certo “frisson” e burburinho nas arquibancadas: “Onde está o Walmor?”. Nos bastidores, a informação é que o veterano se recuperava de uma cirurgia de catarata e de um joelho que resolveu pedir aposentadoria. Mas o Rei não foi esquecido: Walmor ficou radiante ao ser reverenciado por Patrícia Iunovich na Charanga da Yolanda. Como diz o ditado: quem é Rei nunca perde a majestade, no máximo tira uma licença médica.

Bloco da Imprensa
O giro foi completo. O Almanaque Futuro cobriu todos os ângulos da folia, e Eliane Schaefer organizou uma agenda cirúrgica para não deixar nenhum confete para trás. Na terça-feira, fizemos o tradicional footing pela JK, com direito a registro com os colegas na Tenda da Imprensa — muito bem montada pelo vizinho Araújo — onde o povo das letras, das imagens e dos microfones se sentiu em casa.


Canja show de bola!
Parece que foi ontem, mas já se vão 25 anos desde que a primeira Canja do Galo Inácio foi servida em 2001. O evento é um relógio suíço: só falhou uma vez, por força da pandemia. Este ano, o beneficiado foi o CAIA, dando um fôlego extra às obras sociais do Padre Raúl. O mestre Carlão, como sempre, comandou a cozinha com maestria, secundado pelo esforço hercúleo dos colegas voluntários.

Drive-thru de sustança
Ainda não temos o fechamento oficial das vendas, mas o termômetro das panelas indica recorde. A grande surpresa foi o movimento no sistema drive-thru: uma fila interminável de carros na Terceira Pista, com marmitas e caldeirões entrando e saindo pela janela. O iguaçuense não brinca em serviço quando o assunto é canja pós-folia.

E já é Quarta-feira de Cinzas
Puxa vida, o espaço acabou e nem sobrou linha para comentar o Carnaval do Rio, com o destaque para Ney Matogrosso e a presença de Lula no Sambódromo, que ainda vai render muito debate de botequim. Os políticos estão ouriçados, falando até em inelegibilidade por conta de enredos e fotos… será que é para tanto ou é apenas ressaca carnavalesca?
Apoteose do folclore
O Carnaval é o palco das mais ricas manifestações antropológicas. Quem não se lembra de Itamar Franco e a foliã sem calcinha? Escolas de samba narrando a política não é novidade, é tradição. O nó da questão, agora, parece ser o destino das verbas públicas para as Ligas. Uma coisa é certa: quem paga a conta da festa nem sempre usufrui do brilho, mas acaba engessado pela burocracia. Um bom dia a todos! Daqui em diante é só Quaresma e conta para pagar. Que venha, finalmente, o ano de 2026, pois como diz o bom brasileiro: o ano só começa depois que o último surdo do bloco silencia!

Rogério Romano Bonato promete levar a Quaresma ao pé da letra e ser der perder umas gramas no peso. Ele escreve a coluna com exclusividade para o Almanaque Futuro e meios eletrônicos da Rádio Cultura de Foz do Iguaçu.




















































