O comércio de medicamentos voltados ao emagrecimento vive uma expansão acelerada em Ciudad del Este, no Paraguai, transformando um produto que até pouco tempo circulava discretamente em farmácias periféricas em destaque nas vitrines dos principais centros comerciais da cidade.
O avanço das chamadas canetas emagrecedoras também passou a chamar a atenção das autoridades brasileiras. Dados da Receita Federal mostram que o volume de apreensões cresceu rapidamente em menos de um ano. Entre maio e dezembro de 2025, foram retidas 7.479 unidades do medicamento na aduana. Já no começo de 2026, no período entre 2 de janeiro e 8 de fevereiro, o número subiu para 13.321 caixas.
O aumento da circulação está diretamente ligado a dois fatores principais: a venda facilitada, sem exigência de receita médica, e os preços mais baixos em comparação ao mercado brasileiro. O cenário transformou o segmento em um mercado altamente lucrativo, despertando inclusive o interesse do crime organizado no país vizinho.
Com o avanço do comércio irregular, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ampliou as restrições sanitárias. Atualmente, medicamentos das marcas Lipoless Éticos, Tirzapep, Synedica, T.G. e Retatrudide estão proibidos de entrar no Brasil, mesmo quando acompanhados de prescrição médica, conforme orientação da Receita Federal.
As quatro primeiras utilizam tirzepatida como princípio ativo, substância conhecida no Brasil pelo nome comercial Mounjaro. Já a Retatrudide ainda não possui comercialização oficial no mercado mundial e vem sendo apontada como uma nova geração de medicamentos destinados ao tratamento do diabetes tipo 2 e à redução de peso.
Os medicamentos fazem parte de uma evolução tecnológica no tratamento metabólico. Enquanto o Ozempic, à base de semaglutida, atua em um receptor hormonal ligado ao controle do apetite, o Mounjaro atua em dois receptores. A Retatrudide, por sua vez, atua em três mecanismos hormonais, sendo considerada uma alternativa ainda mais potente.
O transporte desses produtos para o Brasil pode gerar consequências criminais severas. A legislação prevê enquadramento por contrabando, com penas entre dois e cinco anos de prisão, além de punições previstas na Lei de Medicamentos, que podem chegar a 15 anos de reclusão.
Além das implicações legais, ainda existem os riscos sanitários. Entre eles, a possibilidade de falsificação dos produtos, com registros de ampolas contendo apenas soro fisiológico. Outro ponto crítico é a conservação. As canetas precisam permanecer sob refrigeração constante, condição que nem sempre é respeitada no transporte irregular.
O crescimento da demanda alterou a forma como esses medicamentos são comercializados em Ciudad del Este. Produtos antes restritos a estabelecimentos pequenos e pouco visíveis passaram a ser ofertados abertamente em drogarias recém-inauguradas, quiosques em shoppings, grandes lojas de departamentos e até lojas voltadas ao setor de beleza.




















































