O arquivo e a memória
A vantagem de ter gasto sola de sapato e tinta de caneta nos últimos 50 anos de jornalismo é possuir o que os algoritmos tentam simular: base histórica. Considero-me um sujeito de memória privilegiada, mas, como cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, mantenho um arquivo físico que agora atravessa o processo de digitalização. As pilhas de jornais e recortes, que antes pediam um puxadinho, agora vão morar em um cantinho do HD. É curioso — e um tanto poético — que uma vida inteira possa, enfim, caber em uma pasta de computador.
Esquerda, direita, volver…
O faro de quem viveu a história faz a “luz amarela” piscar ao menor sinal de déjà-vu global. Nos anos 80, vimos o pêndulo político migrar com força para a esquerda — o adeus aos autoritarismos e a queda do Muro de Berlim. Depois, o centro virou a zona de conforto da globalização. Mas o milênio virou e os ventos sopraram para a direita, trazendo discursos reacionários e a polarização que hoje é o prato do dia. O fato novo? A velocidade do pêndulo. A direita assume, não entrega, e a população logo busca o carimbo canhoto no passaporte, como vimos recentemente em Portugal. No tabuleiro mundial, o “xeque” de hoje é a irrelevância de amanhã.
Ares de movimento na política
Na nossa encantadora Terra de Oz — ou melhor, de Foz —, o carteado eleitoral está naquela fase em que os blefes valem mais que as cartas. Enquanto alguns nomes se lançam prematuramente ao Legislativo, há “tubarões” estudando o fundo do mar com a calma de quem sabe que o registro de candidatura ainda é um fosso escuro. A torcida, ansiosa como quem espera o resultado do jogo do bicho, vive de ilações. Exemplo disso foi a repercussão da visita de Paulo Mac a Alexandre Curi, em Curitiba. O povo fala demais e pergunta de menos.
Detalhe escapulido
A tal visita de Mac ao gabinete da presidência da ALEP, tratada por muitos como “furo” de bastidor, é, na verdade, notícia requentada: aconteceu em dezembro. Induzir o leitor ao erro é fácil; difícil é admitir que, neste momento, o ex-prefeito não decidiu absolutamente nada sobre sua empreitada eleitoral. Ele segue fazendo sua sondagem oceânica, no seu ritmo, devagar, balançando a cauda para um lado, e outro… conforme a correnteza. Atualmente, nem os institutos de pesquisa, nem os videntes conseguem prever o que passa naquela cabeça. Nem o “além” tem a senha desse Wi-Fi.
O que tem uma coisa com a outra?
Falo de guinadas ideológicas porque Foz é um laboratório exótico. O General Silva e Luna, por exemplo, ostenta o crachá da direita, mas o desempenho de sua gestão faz muito candidato cogitar o “centro” para evitar respingos. Se perguntarmos a nomes como Paulo, Vermelho, Matheus, Deoclecio, Airton ou Giacobo se são direita, esquerda ou centro, o silêncio será ensurdecedor ou a resposta, um híbrido digno de ornitorrinco. Eles sabem que existe uma bolha de direita antipetista e “anti-STF”, mas o eleitor iguaçuense, no fim do dia, vota no CPF e não na legenda. Como diria o saudoso Juquinha (meu amigo Juca Chaves) “o sabonete pesa bem mais que a embalagem”, ou seja, o iguaçuense cultua bem mais a figura do político do que seu partido. A maioria não está nem aí parta a esquerda, direita ou centro.
A dança das cadeiras no Executivo
O mundo gira e a “Lusitana” roda. Já perdi a conta do entra-e-sai nas secretarias e diretorias da prefeitura. O “Diário Oficial” virou um roteiro de suspense. Rumores indicam que quatro novas alterações estão engatilhadas para a Quarta-feira de Cinzas. O General, católico praticante e homem de gestos polidos, evitou o “facão” antes do Natal para não estragar a ceia das moças nomeadas. Mas a quarentena da Quaresma deve chegar com sabor de exoneração. É o ciclo da vida pública: uns com a palma, outros com o calvário.
População insatisfeita com a ganância
Seja por inabilidade ou excesso de “malícia”, as negociações com a Câmara nunca estiveram tão expostas. Antigamente, o “toma lá, dá cá” era feito em modo despacito, no sussurro. Agora, o ventilador está no máximo. O cidadão identifica de longe o cargo que foi loteado para atender ao apetite de determinado vereador. Esse “alisamento de pelos” mútuo é o caminho mais rápido para a rejeição. Se a tendência persistir, a taxa de renovação do Legislativo em Foz vai bater outro recorde. O povo está de olho na conta — e ela não fecha.
O tal toma lá, dá cá
A frase de efeito para justificar o injustificável é a tal “governabilidade”. Cruz e credo! É necessário baixar a guarda (e o nível) dessa forma para governar? O povo não engole. Se o General não impuser limites à sanha dos edis, continuará amargando baixos índices de aprovação. O dilema é cruel: se não atende, o projeto não passa; se atende, inunda a máquina com apadrinhados que não sabem onde fica a porta do gabinete. No fim, quem paga o pato — e a conta — é o contribuinte iguaçuense, que recebe uma governança insípida em troca de impostos salgados.
Gente de qualidade
A verdade nua e crua é que os articuladores políticos do governo não são exatamente uma “Brastemp”. Falta técnica para convencer sem precisar entregar nacos da administração. Foz só terá um salto de qualidade quando a política for renovada por gente que proponha leis para reduzir o número de cargos comissionados, e não para criar novos cabides. A eficiência não mora na quantidade de crachás, mas na qualidade de quem os usa.
Carnaval chegou antes
Para não dizer que só falei de espinhos, o pré-carnaval em Foz trouxe um respiro de alegria. Teve “esquenta” na Avenida Brasil, no Mercado Barrageiro e na Vila Yolanda. O Bloco Papai Urso e o lançamento da Canja do Galo Inácio provaram que o iguaçuense é resiliente: nem o céu desabando em chuva afastou os foliões. Joãozinho Espetinho ajudou a comandar os panelões para beneficiar o CAIA do Porto Meira, instituição que merece todo o nosso aplauso. Taí a prova: em meio de tanta política árida, e quando uma canja de galinha e batuque limpam a alma.
Preparação
O lançamento da Canja é o rito de passagem para o Carnaval oficial na Praça da Paz. É o momento em que a solidariedade se veste com o abadá. E anotem aí: no sábado, dia 14, a Avenida Iguaçu recebe a Charanga da Yolanda, com aquele carnaval de marchinhas que faz a gente lembrar por que ama esta cidade. No mais, uma semana colorida, animada e — se possível — com juízo a todos!

Rogério Romano Bonato ex-carnavalesco, ex-folião de carteirinha, ex-puxador de samba e folia, se prepara para ajudar na 25a edição da Canja do Galo Inácio e a emplacar a segunda edição da Charanga da Iolanda, juntamente com o Papai Urso e o Joãozinho Espetinhos. Esta coluna é redigida com exclusividade para o Almanaque Futuro e meios eletrônicos da Rádio Cultura de Foz do Iguaçu; vem em quando ele respinda nos microfones.


















































