Há datas que não pertencem apenas ao calendário. Elas atravessam o tempo e nos atravessam por dentro. 27 de janeiro é uma delas.
Em 1945, as tropas soviéticas libertaram os prisioneiros do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. Os portões se abriram, as amarras caíram, mas aquilo que ali aconteceu jamais encontrou saída fácil da história. O Holocausto não é um evento encerrado: é uma memória viva, dolorosa, necessária. Lembrá-lo não é um exercício de passado, é um compromisso com o presente.
Sigmund Freud nos ensinou que aquilo que não é trazido à consciência retorna como repetição. O inconsciente, quando ignorado, não descansa: ele insiste. Reencena. Reapresenta a dor sob novas formas, na tentativa — quase desesperada — de que o final seja diferente. Repetimos não por escolha, mas por não termos ainda conseguido olhar.
Bert Hellinger, a partir de uma visão sistêmica, amplia esse entendimento ao nos lembrar que sistemas inteiros carregam memórias. Famílias, povos, nações. Quando uma dor é negada ou minimizada, ela não desaparece — ela se desloca. E costuma reaparecer como destino, conflito, violência ou exclusão. O que não é reconhecido com consciência e respeito tende a exigir lugar em outros momentos na história.
Por isso, lembrar Auschwitz , no Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, não é apenas recordar o horror inimaginável que foi o Holocausto. É olhar com sobriedade para a capacidade humana de desumanizar. É reconhecer até onde o silêncio, a indiferença e a obediência cega podem conduzir. Não para apontar culpados simplórios, nem levantar bandeiras fáceis de certo ou errado, mas para sustentar uma pergunta essencial: o que ainda não estamos vendo?
Os campos foram fechados, mas o cerceamento das liberdades fundamentais segue encontrando novas arquiteturas. A liberdade de expressão, de existência, de pensamento — tantas vezes ameaçada, tantas vezes negociada em nome do conforto, da ordem ou do medo. O grito por liberdade continua ecoando, às vezes alto, às vezes sussurrado, mas sempre presente.
Não há como naturalizar o Holocausto. Não há como banalizá-lo. Ele aconteceu. Foram milhões de vítimas, pessoas inocentes cruelmente assassinadas. Sua lembrança dói porque deve doer. É essa dor que nos impede de transformar o impensável em estatística e o terror em ruído distante. É preciso lembrar justamente porque tentar esquecer abre caminho para a repetição.
Talvez o gesto mais humano que possamos fazer hoje seja esse: lembrar com respeito de todas as vidas aterrorizadas e ceifadas, olhar com consciência e reconhecer que a história não se repete por acaso. Ela retorna quando não foi escutada, apesar de seus milhares e milhares de clamores.
Que 27 de janeiro nos convoque não apenas à memória, mas à responsabilidade.
Porque aquilo que é visto com verdade pode, enfim, descansar.
E aquilo que é lembrado com dignidade tem mais chances de não se repetir jamais.
Compartilho este texto com profundo respeito às vítimas do Holocausto, às vidas interrompidas e às histórias silenciadas. Aos sobreviventes e seus descendentes, que ainda hoje carregam marcas invisíveis dessa dor.
Lembrar é um ato de consciência.
Não repetir é um compromisso com a humanidade.
Há portos que convidam para uma reflexão mais profunda a respeito da vida.
Até o próximo!
Estella Parisotto Lucas



















































