É cedo, mas quem se importa?
O ano mal começou e o que mais se vê por aí é pesquisa. Curiosamente, quase tudo é para consumo interno de partidos, candidatos e apoiadores. É o que chamamos na Ciência Política de “Pesquisa de Balizamento”: serve menos para prever o futuro e mais para medir o tamanho do ego ou o potencial de estrago de um adversário.
O que mais aparece?
Na fase de balizamento o assunto, por enquanto, não sai da administração pública, porque ela ainda reflete a polarização. E francamente, sem que se faça uma pesquisa, todo mundo sabe que há três figuras, ou melhor situações, em voga: o General Silva e Luna, Paulo Mac Donald e os que se arrependeram em não votar nele. Há quem ande praticando autoflagelação com gilete quando se lembra.
Medão
Mas voltando ao tema das pesquisas, ninguém quer entrar em fria no momento em que começarem a passar o “ofertório”, ou seja, aquele saquinho de coleta das missas. Por isso encomendam os levantamentos. A peregrinação dos pré-candidatos começará nas associações e empresas, geralmente com o clássico pedido: “posso falar com os seus funcionários?”. Mas a gente sabe que é no gabinete do patrão que a conversa ganha profundidade e os números entram na mesa como moeda de troca. O empresário truca!
Mais defesa que outra coisa
Essa tal “análise” é, na verdade, uma ação preventiva contra predadores. O suposto candidato sem chances aparece, jura que é viável, e o visitado se defende com o levantamento embaixo do braço. É a estatística usada como escudo. Alguns ficam envergonhados, mas a maioria nem liga; isso faz parte da engenhosidade eleitoreira. O problema é que, cientificamente, essas consultas sofrem do chamado Viés de Disponibilidade: como ainda não há campanha nas ruas, o eleitor tende a citar apenas quem já está na mídia ou detém o mandato. É um retrato viciado.
Encrenca
Divulgar esses dados é um perigo, pois não possuem registro na Justiça Eleitoral. Mesmo assim, eles correm de mão em mão sob o manto do segredo. Se um juiz pegar, o prejuízo é certo. O Corvo já leu meia dúzia dessas avaliações que surgem do nada, misteriosamente. O conteúdo não é levado a sério por quem entende, até porque é cedo para avaliar. Mas a fauna política não se engana: essas pesquisas tentam compreender o desempenho de quem está no poder e capturar o humor dos sem mandato, mas que podem fazer a diferença na briga pelas vagas de deputado.
Engasgo
Realizar pesquisa para o Legislativo neste estágio é uma tarefa ingrata. Como bem diz um amigo dono de instituto, é quase impossível cravar resultados. Isso ocorre devido à Volatilidade de Base: você pode ter um desempenho excelente em uma cidade, mas ao cruzar a fronteira para o município vizinho, o cenário muda completamente. Sem o chamado “voto de legenda” consolidado ou uma estrutura de campanha, o eleitor flutua. É o fenômeno da fragmentação; as respostas são diferentes porque, simplesmente, o eleitor ainda não “ligou a chave” das eleições.
A Ciência do Indeciso
Estudos de comportamento eleitoral mostram que, em janeiro e fevereiro, o índice de “indecisos” em pesquisas espontâneas (aquela onde não se apresenta nomes) costuma ultrapassar os 70%. Tentar extrair uma tendência definitiva desses números é como prever o resultado de um campeonato de futebol olhando apenas para o aquecimento dos atletas no vestiário.
Margem de erro e humildade:
Muitos desses levantamentos internos ignoram a Margem de Erro Relativa em amostras pequenas. Em cidades menores, onde o número de entrevistas é reduzido, a margem de erro pode ser maior do que a diferença entre os candidatos. É a receita perfeita para o “autoengano” político.
O efeito “recall”
Para quem está sem mandato, a pesquisa de agora serve apenas para medir o Recall (lembrança de marca). Se o nome não aparece nem no “traço” da estatística, o candidato precisa entender que sua estratégia de comunicação falhou anteriormente. Já para quem está no cargo, a pesquisa mede menos a intenção de voto e mais a Aprovação Administrativa, que são coisas distintas: o povo pode achar o candidato bom, mas querer mudar o rosto na urna. Por esse aspecto, quem comprova serviço se dá bem.
Até em romaria
Disseram para este colunista que havia políticos pescando voto até no Dia de Iemanjá. Uma semana antes estava desdenhando a imagem no tempo, mas foi na beira do rio vestido com roupas brancas. Aí é difícil saber a face herege, se com a religião ou população.
Alô, alô eleitor…
Vá se acostumando, alguns desconhecidos o cumprimentarão no dia de seu aniversário, ou da sua mãe. Preste atenção na conversa, porque pode dar bom dia a cavalo, ou melhor, ao robô. Um amigo dono de estúdio de gravação revelou que passou uma semana gravando vozes de políticos para a realização de mensagens em clone. É aquele serviço que ajuda candidato a economizar tempo e é disparado em listas de transmissão.
A volta cuidadosa
Algumas carinhas da nossa política estão em processo de exposição cuidadosa, aos poucos retornando ao ambiente público. Como na beira do rio, colocam antes o pé na água para saber se está boa de tomar um banho. Se estiver gelada, calça a meia e volta para casa. Basta conferir as redes sociais e veremos figuras que andavam meio desaparecidas.
Ano da tecnologia
Olhando as redes sociais é possível ter ideia do que vem por aí em matéria de tecnologia da enganação. Para alguns publicitários é revoltante, mas no fundo sabemos que eles gostam. A IA é uma mão na roda se o assunto é produzir peças de qualidade.
Boa terça-feira!
Meus amigos, é pré-semana carnavalesca, com vários eventos programados. É quando fazem um esquenta para afinar os blocos e os instrumentos guardados o ano inteiro. Aguenta o repinique! O Carnaval se Foz terá um dia a mais, segundo anunciado.

Rogério Romano Bonato escreve com exclusividade para o Almanaque Futuro e Rádio Cultura de Foz do Iguaçu. Nesta terça-feria ele retorna aos microfones, participando do porgrama Contraponto.




















































