Paulo no Contraponto
O ex-prefeito Paulo Mac Donald Ghisi possui um dom extraordinário de caminhar como artiodáctilo em loja de bibelôs. No programa Contraponto desta segunda-feira, na Rádio Cultura de Foz do Iguaçu, fez como sempre faz: pôs o povo a pensar. Todos queriam saber o que fará nas eleições deste ano (entrevistadores e ouvintes), mas ele desconversou, esquivou, plantou condicionais sobre pesquisas e o desejo do povo e, em algum momento, vitimizou-se com um “eles não me querem”, lembrando a reviravolta das eleições municipais, onde mantinha cerca de 45% das intenções e acabou derrotado por um “cara de fora” da cidade no primeiro turno. Em verdade, a conversa do Paulo é sobre 2028. Deixou um recado bastante claro para os bons entendedores, em “hieróglifos egípcios” — ou seja, de amplas interpretações. São muitas as variáveis até uma candidatura; haja paciência, mas é ele quem decide.
O assunto é a cidade
Na cabeça de Paulo Mac, a cidade vem antes de tudo, porque é o palco das ações políticas de grande interesse da população. Ainda mais quando o assunto é Foz do Iguaçu, uma ilha no meio de tantas repartições federais se intrometendo em tudo, com grande carga de imposições. E é bem o que acontece: tudo é planejado por gente distante e, em razão disso, a população vive à mercê de grandes enrascadas, labirintos e obras que se perdem pela falta de conhecimento logístico nativo. Comunidades literalmente morrem diante de projetos estapafúrdios, como aconteceu com o Jupira e hoje ameaça o isolamento do Jardim Cataratas. Há, ainda, uma Perimetral Leste que não servirá para mais nada a não ser filas de caminhões, inutilizando o tráfego de veículos pequenos, inclusive o transporte de visitantes e turistas; a tragédia do Trevo do Charrua; e a BR-469 causando grande dor de cabeça aos moradores da área Sul. Pedestres terão que saltar as muretas e desviar dos táxis em alta velocidade indo para o aeroporto. Uma barbaridade! Parodiando Kate Lyra, “o iguaçuense é bonzinho”, permite que lhe façam de gato e sapato. Paulo quer mudar isso; critica a inércia e essa forma de agir e pensar.
Um jeito de olhar
Ao contrário do que possa parecer, Paulo é um homem de posicionamento firme e mantém uma visão muito clara da cidade, com uma paixão que vai além dos cargos políticos. Se olharmos isso com atenção, nos incorporaremos ao mesmo dilema. Na opinião deste colunista, Paulo veste bem melhor a roupa de prefeito: calça jeans, sapatos sem cadarços e camisa fora da calça, indo todos os dias de madrugada para o gabinete para se debruçar em soluções urbanas, na saúde, na educação e no dia a dia da população que vive no “engasgo” de uma cidade que anda bem mais rápido que o pensamento político nos gabinetes em Curitiba e Brasília. Francamente, não o vejo atrás de uma bancada na ALEP ou na Câmara Federal, com gravatinha, terno de tergal e meias. Deem um tempo. Mas, como dito acima, o ex-prefeito decidirá como passará os próximos anos, porque, com ou sem cargo, a política não sairá dele.
O parapeito do Paulo
Todo mundo sabe que a janela eleitoral se fechará em 3 de abril — em menos de dez dias. Esperto, Paulo diz que ainda conversará com o “maioral” do PP, Ricardo Barros. Na Rádio Cultura, ele foi elegante ao demonstrar preocupação com os amigos, os deputados Vermelho (pai) e Matheus Vermelho (filho), que pertencem ao mesmo partido; não quer, de jeito algum, causar azedume na “chupeta eleitoral” de ambos. E o Vermelho “papi”, o “Red raiz”, que não é nada bobo, continua batendo no peito sobre a empreitada em favor de Paulo. Faz isso porque agrada aos arrependidos de não terem votado no ex-prefeito e também aos que não aprovam a atual gestão. E haja gente nesse nicho. No geral, Paulo ainda vai pensar bastante, independentemente do incômodo que isso cause. Ele possui um radar completo da situação e fará uma escolha pontual. Vamos pensar: se sair candidato, feliz do suplente, porque a legislatura será de apenas dois anos.
Falar em Vermelho…
…o deputado estava com o radinho de pilhas ao ouvido, escutando a entrevista de Paulo Mac Donald, quando Joel de Lima deixou de mencionar seu nome ao relacionar os deputados eleitos por Foz ao longo da história. O ranger de dentes e o rosnado foram ouvidos à distância na Esplanada. O Vermelho ficou roxo! Na visão do entrevistador, os deputados ou exerceram a suplência ou não representaram a cidade no quesito “entrega”. Cada um pensa do seu jeito e, por isso, este colunista resolveu fazer um balanço dos mandatos de Vermelho na Câmara. Não é defesa, é ajuste memorial.
Resultados
Indo aos números, nos deparamos com um fato: o deputado trabalhou bastante. Não sejamos injustos: se somarmos o “cascalho” enviado por Luciano, Spada, Rorato e Prof. Sérgio e outros, a conta não chega aos pés do que Vermelho injetou na cidade — cifra que beira os R$ 102 milhões. Convém lembrar que ele fincou bandeira em Foz em 1991; são 35 anos de fronteira.
Onde está o dinheiro?
Sem querer entrar em briga de foice, os recursos públicos viabilizados pelo parlamentar atenderam a praticamente todos os setores. A Saúde contou com quase R$ 60 milhões: do Hospital Municipal às UPAs, o dinheiro virou equipamento e remédio (o que, convenhamos, é o mínimo que se espera, mas que raramente acontece). Na educação, foram mais de R$ 10,6 milhões para tirar do papel quatro creches (Jardim Buenos Aires, Rosa Cirilo, Almada e Celeste Sottomaior).
Entre o afago e o “porrete”
A vida política é um paradoxo. No momento em que Vermelho foi eleito vice-presidente da Comissão de Finanças da Câmara — o coração financeiro do Congresso, por onde passam os bilhões que decidem o futuro do país — ele levava um “gelo” radiofônico? Claro que se incomodou, e com razão. É uma ironia: enquanto ele amplia sua influência em Brasília para controlar o fluxo do Orçamento de 2026, leva um soco no estômago. O reparo é necessário; afinal, nenhum projeto de impacto econômico relevante avançará sem que o Vermelho saiba. Bom, possivelmente ele mesmo fará o balancete. Ao que parece, solicitou espaço no programa Contraponto. Os supermercados já estão reforçando os estoques de pipoca.
Ratinho: in ou out?
A semana é inspiradora quando o assunto é reflexão. Depois de ouvir Paulo Mac refletindo por quase uma hora e, em seguida, ler o noticiário com a desistência de Ratinho Júnior em sua insólita corrida rumo ao Planalto, lembrei de um episódio em escala bem menor: a decisão do ex-deputado Chico Noroeste e seu clássico exercício de “profunda reflexão”. Quem esquece aquilo? Ratinho, enfim, planeja ficar pelo Paraná, fazendo força contra Sérgio Moro e, por tabela, revisando seu grupo político. Deve haver muitas encrencas no percurso, como, por exemplo, a “mão do Master” na privatização da Copel — ai, ai, ai. Isso vai dar uma dorzinha de cabeça nas eleições.
Coalizão
Dizem as vertentes que o governador permanecerá no Palácio Iguaçu, antes e depois da eleição. Caso emplaque o substituto, poderá — segundo as más e as boas línguas — até mesmo assumir um cargo de assessor no governo, porque o tempo passa rápido e ele não quer desgrudar. Quem for ungido para a missão de substituí-lo sabe que ela será de apenas quatro anos. Little Mouse quer o gabinete de volta em 2030!
E o Moro?
A decisão de Ratinho Júnior deve ter criado uma caraminhola na cabeça do senador Sérgio Moro. No mínimo, ele meditou bastante sobre a pressão em Valdemar da Costa Neto para barrá-lo no “baile do PL”, mesmo com o apoio de Flávio Bolsonaro. Isso parece ser coisa do passado. Já se mudou para o partido.
Dilema
Política é assim: um dia calça de veludo, no outro a bunda de fora. Os candidatos a deputado pelo PL estavam como patos na lagoa, faceiros, imaginando uma estrada aberta e fácil de ser percorrida. As variantes eram promissoras do qualquer jeito: ou seguiriam com Moro, ou com Ratinho. Haverá divisão.
Deoclécio
O empresário e comunicador assoprou 50 velinhas no dia 20. Como o Corvo estava em período sabático, realizando “profundas reflexões”, não cumprimentou o amigo Deoclécio por meio da coluna, como faz com todos os aniversariantes. Mas, de olho no aniversariante, foi possível entender que ele vem causando um debate de repercussão: a tese de que “Foz do Iguaçu precisa ser reconhecida pelo Estado e pelo Governo Federal como uma metrópole trinacional”. Num raio de 50 quilômetros, são 11 municípios de fronteira, com população de 1 milhão de habitantes e um PIB de R$ 82 bilhões — economia que, no Paraná, só perde para a Região Metropolitana de Curitiba.
De corredor a polo
Foz é vista por muitos como rota de passagem, e a mudança de conceito pode causar um salto. A proposta defendida por Deoclécio foca em políticas adequadas e apoio institucional; a cidade tem condições de deixar de ser apenas um corredor logístico para se tornar um polo de transformação. O empresário avalia que isso não prosperou ainda porque a legislação é desatualizada. E é mesmo. Para ele, com mudanças pontuais e diálogo com os governos estadual e federal, Foz pode se tornar mais competitiva e atrativa para novos negócios. Na avaliação dele, com um novo olhar do Poder Público e planejamento integrado, Foz pode consolidar seu protagonismo regional. A proposta de “metrópole trinacional” vai além de um conceito: trata-se de um novo modelo de planejamento, capaz de alinhar desenvolvimento econômico, integração internacional e melhoria na qualidade de vida.
De olho na ALEP
Como pré-candidato a deputado estadual pelo PL, ele entende que a cidade precisa aumentar a representatividade na Assembleia Legislativa com mais força política para assegurar esse reconhecimento. “Precisamos ter um olhar amplo sobre Foz do Iguaçu e aproveitar toda essa posição estratégica que temos. É fundamental aumentar a representatividade, ter mais deputados que busquem esse reconhecimento e que também dialoguem com os parlamentos de fronteira no Paraguai e na Argentina”, argumenta.

Rogério Romano Bonato atiça a imaginação ao escrever a coluna No Bico do Corvo, publicada com exclusividade no portal Almanaque Futuro e meios eletrônicos da Rádio Cultura de Foz do Iguaçu. Ele é membro cativo do programa Contraponto, levado ao ar de segundas às sextas-feiras, das 11:00 às 12:30. Não bateu o cartão nesta terça, 24, em razão de uma aparente e demolidora gripe.



















































