Um ano depois: tragédia que matou pai e filho em Foz do Iguaçu ainda espera por julgamento

Um ano após processo segue na Justiça e defesa do motorista recorre da decisão que o levou ao Tribunal do Júri.

Foto: Arquivo

Um ano depois da tragédia que tirou a vida de pai e filho em Foz do Iguaçu, o caso ainda aguarda uma decisão definitiva da Justiça. A batida aconteceu na manhã de 17 de março de 2025, no cruzamento da Avenida Juscelino Kubitschek, uma das vias mais movimentadas da cidade.

Imagens de câmeras de segurança registraram o momento em que a motocicleta onde estavam Gilberto de Almeida, de 59 anos, e o filho Alexandre Leal de Almeida, de 29 anos, aguardava parada no semáforo. Segundos depois, o veículo foi atingido por um carro.

Com o impacto, as vítimas foram arrastadas por alguns metros. Pai e filho morreram ainda no local.

O motorista do carro, David André Martens, deixou o local logo após o acidente com a ajuda de amigos. Ele se apresentou dois dias depois na delegacia acompanhado de um advogado, prestou depoimento e foi liberado. Desde então, responde ao processo em liberdade.

Investigação apontou consumo de álcool

A investigação da Polícia Civil apontou que o motorista havia ingerido bebida alcoólica antes de dirigir. Imagens de câmeras de segurança anexadas ao processo mostram David em um bar e depois em uma casa de festas poucas horas antes da batida.

Notas fiscais também indicam a compra de bebidas alcoólicas naquela noite.

Para o Ministério Público, o comportamento anterior ao acidente demonstra que o motorista assumiu o risco de provocar a tragédia.

Segundo o promotor de Justiça Nielson Noberto de Azeredo, responsável pelo caso, há elementos que indicam essa responsabilidade.

“Nunca se teve dúvida de que ele agiu assumindo o risco do resultado. Não necessariamente com a intenção de matar, mas assumindo o risco de que isso pudesse acontecer.”

O promotor também afirmou que o Ministério Público continuará atuando para que haja responsabilização proporcional à gravidade do caso.

“O Ministério Público continuará lutando para que haja uma condenação e uma responsabilização no tamanho da gravidade que foi a prática do crime.”

Família prefere o silêncio

Um ano depois da tragédia, o local do acidente já não apresenta mais marcas da batida. Mas para a família, a dor continua. A esposa de Gilberto e mãe de Alexandre, dona Ronílzia, preferiu não conceder entrevista. Segundo familiares, o sofrimento ainda é muito grande. Os irmãos e filhos das vítimas também optaram pelo silêncio.

Na manhã desta terça-feira (17), data que marca um ano do acidente, familiares e amigos realizaram uma manifestação pedindo justiça. O grupo cobrou a prisão do motorista e a punição pelo acidente que matou pai e filho.

Motorista foi levado a júri popular

Em 8 de dezembro de 2025, a Justiça de Foz do Iguaçu decidiu que o réu deveria ser levado a júri popular, após a chamada decisão de pronúncia.

Durante depoimento no processo, David André Martens afirmou que não viu a motocicleta no cruzamento.

“Eu juro que não consigo dizer exatamente o que aconteceu. Quando eu vi, eu já estava em cima da moto. Foi um susto, eu não consegui ver aquela motocicleta”, declarou durante audiência.

Ele também afirmou que pediu para que pessoas próximas acionassem o socorro e que deixou o local após um amigo sugerir que fosse para casa.

Defesa recorre da decisão

A defesa do réu é feita pelo advogado Luiz Carlos Soares Junior, que apresentou recurso contra a decisão que levou o caso ao Tribunal do Júri.

Segundo o advogado, recorrer faz parte do direito de defesa e não representa desrespeito à família das vítimas.

“O fato de o David se defender não significa afronta à família ou desmerecimento da acusação. É um direito de todo cidadão para que seja realizado um julgamento justo.”

Família é representada por advogados assistentes

A família das vítimas é representada no processo pelos advogados Jonathan Clemente da Silva e Lucas Ghazaoui, que atuam como assistente de acusação.

Segundo os advogados, a decisão que levou o caso ao júri trouxe um sentimento de esperança de que a Justiça seja feita.

“Essa decisão traz uma sensação de conforto para a família e também para a sociedade, porque demonstra que o caso está caminhando para uma análise mais profunda no Tribunal do Júri.”, destaca Jonathan Clemente da Silva

Os representantes da família também afirmam que o objetivo não é apenas uma condenação, mas que haja responsabilização pela tragédia.

“Não queremos uma condenação por condenação. O que buscamos é justiça, na medida certa, diante da gravidade do que aconteceu.”, ressalta Lucas Ghazaoui,.

Eles também destacam que, desde o início do processo, o réu ou seus representantes nunca procuraram a família das vítimas.

“Até hoje não houve nenhuma tentativa de contato, de conciliação ou qualquer tipo de reparação por parte do réu ou da família dele.”, completa Ghazaoui,

Julgamento ainda pode demorar

Apesar do avanço no processo, a decisão final ainda pode levar tempo.

Como a defesa apresentou recurso, o caso será analisado pelo Tribunal de Justiça do Paraná. Caso a decisão de pronúncia seja mantida, o processo seguirá para julgamento no Tribunal do Júri em Foz do Iguaçu.

Com os prazos judiciais, a definição sobre o julgamento pode levar mais um ano.

Memória e espera por justiça

Enquanto o processo segue na Justiça, a família tenta lidar com a perda.

Na memória permanecem as lembranças de Gilberto e Alexandre, pai e filho que tiveram as vidas interrompidas em uma manhã comum de trânsito.

Para quem ficou, permanece a esperança de que a tragédia não seja esquecida — e que a Justiça traga uma resposta para uma perda que jamais poderá ser reparada.

Sair da versão mobile