A fauna eleitoral se movimenta no Paraná

Na última edição da semana, Rogério Bonato ensaia o terreno da política e reflete a "desmemória" cibernética, quando um HD com todos os dados literalmente torra.

Meio ambiente político

Não está errado avaliar o habitat dos nossos nobres representantes e candidatos como uma selva, tal qual nos filmes de ficção, onde habitam bichos inimagináveis, gorilas gigantes se atracando com dinossauros e afins. Diariamente sou surpreendido com atitudes inusitadas, ainda que algumas ocorram conforme a imaginação. Quem acompanha a movimentação dessa gente por mais de meio século adquire um conhecimento sintomático sobre tais comportamentos. Não faz muito tempo, na bancada do Contraponto (Rádio Cultura), a previsão acertou em cheio no que diz respeito à política paranaense.

 

Ratinho tranquilo e o radar de março

Uma nova pesquisa não sacudiu o ambiente; ao contrário, confirmou que a fauna estacionou, com números oscilando para cima ou para baixo conforme a conveniência. Se a eleição fosse hoje, o Palácio Iguaçu teria um inquilino com sobrenome de peso judicial: Sergio Moro lidera com folga, batendo os 44% das intenções de voto no cenário principal. Requião Filho vem no retrovisor, mas ainda distante, com 23,1%. É o Paraná mostrando que, entre o novo e o conhecido, ainda prefere o que vem com tarja de “combate”.

 

O anúncio é um drama

Dizer quem será o seu candidato não é o principal dilema de Ratinho Jr., mas para os opositores, o silêncio é torturante. Quanto mais o governador demora, mais inquieta o ambiente. Há grandes expectativas de que o anúncio faça um strike nos pinos que restam ao final da pista. Enquanto a bola não rola, Ratinho viaja em céu de brigadeiro: sua administração ostenta uma aprovação de 84,3%. O paranaense parece aprovar o “estilo trator” do governador, que pavimenta não apenas estradas, mas para quem ele apontar o dedo. Quando ele ungir o sucessor, será meio caminho andado. Quem ignora esse poder de transferência é ruim da cabeça ou doente do pé.

 

Partido do Flávio

Nesse cenário, o PL precisará de um arranjo cirúrgico, mais detalhado que pintura em soldadinho de chumbo, para se garantir no estado. A rejeição continua sendo um problemão, mas a indecisão é ainda maior. A soma desses fatores foge à simples matemática.

 

Na moita e o xadrez de 2026

A possibilidade de Flávio Bolsonaro se acertar com Sergio Moro parece não atemorizar a “ratolândia”. Se tal aliança vingar, o racha no PL torna-se quase inevitável, dadas as juras de amor de prefeitos e vereadores ao atual governo. Em meio a esse fenômeno, o que mais haverá é gente prometendo vela para um santo e acendendo para outro, tirando vantagem dos dois lados.

 

Políticos possuem esse traquejo

Vão morrer sem entregar o que fizeram e, claro, estarão sempre ao lado dos vencedores. É assim e sempre será. O que vemos agora não é apenas uma fotografia, mas um quadro a óleo de uma política que se recusa a mudar radicalmente.

 

A dança das cadeiras e a rejeição como bússola

Para as duas vagas ao Senado, o veterano Alvaro Dias mostra que ainda tem lenha para queimar, liderando com 49,6% das intenções. Logo atrás, Alexandre Curi consolida sua força legislativa com 33,7%. A nota curiosa fica com Gleisi Hoffmann: aparece com 24,1%, mas carrega o fardo da maior rejeição (46,6%). No Paraná, o coração da esquerda ainda bate em ritmo de arritmia.

 

Cola e não larga

Olhando para o “não voto”, Requião Filho amarga 33,7% de rejeição, contra 18,3% de Moro. É aqui que o jogo se decide. Sergio Moro possui uma estrada mais limpa para crescer, enquanto Requião precisa convencer um terço do estado sobre o estilo combativo da família.

 

Resumo da Ópera

O Paraná de 2026 respira uma estabilidade conservadora. O fenômeno Moro domina e desidrata candidaturas vizinhas. Mesmo quando Rafael Greca entra no tabuleiro, herdando 19,1% dos votos, ele ainda não rompe as fronteiras da Serra do Mar com força para ameaçar o topo. Por enquanto, Moro é o favorito, mas na política paranaense, como no nosso clima, o tempo pode virar em minutos.

 

Nota Técnica

Dados baseados no levantamento do Instituto Paraná Pesquisas, registrado no TSE sob o n.º PR-06254/2026. Foram ouvidos 1.500 eleitores em 55 municípios do Paraná, entre os dias 01 e 04 de março de 2026. A margem de erro é de 2,6 pontos percentuais para os resultados gerais e o nível de confiança é de 95%.

 

Fora do ar

Prezados, já havia experimentado o limbo eletrônico em outras ocasiões, porém jamais imaginei quão difícil seria ficar — assim, do nada — sem o HD. Onde a vida estava armazenada, o local que abrigava o “algoritmo Bonato” em sua essência, evaporou. Cartas, mensagens, fotos, livros editados e inéditos, projetos e ideias consolidadas: tudo sumiu no éter.

 

Sentimento da ausência

Não se trata apenas de perda; é algo maior. Certa vez, o desabafo de um amigo me demoliu. Ele perdera tudo em um incêndio. Dizia não se importar com móveis, roupas ou com a casa toda, da qual não restaram nem as paredes lá na Vila A. O tormento vinha das lembranças consumidas pelas chamas: as fotos dos pais, o crescimento dos filhos, as viagens e as recordações da esposa falecida. Para ele, cada bibelô era ponte para o sonho. Nada restou. Senti um pouco dessa ausência quando meu HD partiu sem dizer adeus, sem sinal de despedida, levando mais que “uma imagem de São Francisco e um bom disco do Noel”. Aprendi, a duras penas, a lição sobre a necessidade do backup.

 

O medo e o reconforto

Bateu uma crise de saudade da minha Olivetti Lettera, dos arquivos de papel e das caixas de retratos, removidos para erradicar os ácaros em casa. Mas resta esperar a dor passar e olhar para a frente. Graças à indicação do Elson Marques, levei o notebook quase “mortinho da silva”, com a linguinha de fora e vitimado por um derrame cerebral, ao Eduardo Leal. Rezei enquanto ele realizava os exames detalhados. O retorno foi digno daquelas cenas em que o médico traz a má notícia. Senti que o Leal, no exercício da profissão, desenvolveu uma psicologia fina para lidar com o desespero da freguesia. “Este aqui não tem mais jeito, meu amigo”, diagnosticou, “mas farei o transplante e logo ele estará saracoteando”. O processo levou apenas uma hora e meia. O Leal honrou o sobrenome: lealdade profissionalíssima! Agora, o trabalho é de fisioterapia mental; buscar nas redes e e-mails o que foi compartilhado para devolver ao cérebro esvaziado o oxigênio necessário. Vida que segue!

 

Final de semana

O leitor desavisado pode questionar: “O que tenho eu com isso? Com o problema do Bonato e seu velho notebook do tempo do onça?”. Aparentemente nada, mas tomara não aconteça tragédia semelhante com a ferramenta de trabalho de mais ninguém. Desejo a todos uma bela sexta-feira e um ótimo final de semana. Pode ser que eu retorne com alguma crônica, novidade ou assunto de interesse. Inté!

Rogério Romano Bonato acompanha a política e de tudo um pouco; escreve a coluna No Bico do Corvo para o Almanaque Futuro e meios eletrônicos da Rádio Cultura de Foz do Iguaçu

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