O cenário da neurocirurgia brasileira vive um momento de expectativa histórica com o avanço dos estudos da Polilaminina, uma substância que promete mudar o prognóstico de pacientes com lesões na medula espinhal. No programa Contraponto, o neurocirurgião Dr. João Elias Ferreira El Sarraf, que integra a equipe de aplicação da medicação, explicou o funcionamento científico da droga e o atual estágio dos testes em humanos.
O que é a Polilaminina?
Diferente de medicamentos convencionais, a Polilaminina é uma proteína desenvolvida em laboratório pela Dra. Tatiana Coelho-Sampaio (UFRJ) a partir de uma molécula já existente no corpo humano. Segundo o Dr. João Elias, ela atua como um facilitador físico e biológico para o sistema nervoso. “A Polilaminina cria uma rede, como se fosse um tapete, que favorece que os neurônios se regenerem e cresçam novamente após uma lesão”, explicou o cirurgião.
De 9% para 75%: O impacto nos resultados
O médico destacou que a principal motivação do estudo são os dados estatísticos. Na literatura médica atual, apenas cerca de 9% dos pacientes que sofrem lesões medulares conseguem recuperar algum grau de movimento. Nos ensaios com a Polilaminina, esse índice saltou para 75%.
“Pode ter sido ao acaso? Difícil. É muito improvável que um salto de 9% para 75% não tenha relação direta com o uso da medicação”, pontuou o Dr. João Elias Ferreira El Sarraf, reforçando que, embora promissor, o tratamento não é “mágico” e exige reabilitação intensiva para que os novos neurônios aprendam suas funções.
Cronograma da ANVISA em 2026
O cirurgião esclareceu que, desde janeiro de 2026, a ANVISA autorizou a Fase 1 dos estudos clínicos no Brasil. Esta etapa é fundamental para garantir a segurança dos pacientes.
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Protocolo atual: Acompanhamento de 5 pacientes por um período de 6 meses.
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Foco: Comprovar que a droga não causa efeitos colaterais graves.
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Próximos passos: Após a validação da segurança, a pesquisa avança para as fases que comprovam a eficácia em larga escala.
Alerta sobre pacientes crônicos e charlatanismo
Um ponto de atenção trazido pelo médico é a diferença entre casos recentes e casos crônicos (com mais de 90 dias). Em lesões antigas, forma-se uma fibrose (cicatriz) que impede a passagem da droga. Atualmente, o grupo de pesquisa estuda formas de “dissolver” essa cicatriz para permitir a ação da Polilaminina.
O Dr. João Elias Ferreira El Sarraf também fez um alerta ético: o tratamento é experimental e gratuito. “Não existe ‘jeitinho’ ou venda de doses. O laboratório Cristália financia a medicação para quem entra nos protocolos. Pacientes e familiares devem ter cuidado com promessas de intermediários”, concluiu.
