O som que há décadas marca o ritmo de Foz do Iguaçu pode, em breve, ganhar reconhecimento oficial. O Conselho Municipal do Patrimônio Histórico abriu processo para declarar as badaladas do sino da Catedral São João Batista como patrimônio cultural imaterial do município.
A iniciativa busca preservar não apenas um instrumento, mas um símbolo coletivo. O sino, que hoje toca apenas ao meio-dia, já anunciou também as seis da manhã. O toque matinal foi interrompido após reclamações de moradores vizinhos, restando o badalar do meio-dia como herança sonora que atravessa gerações.
Mais do que marcar horas, o sino marca histórias.
E nenhuma delas é tão imediatamente associada ao seu som quanto a de Hermann Josef Lauck. Se estivesse vivo, completaria 92 anos neste mês. Por décadas, foi sob aquelas badaladas que ele construiu sua missão pastoral e social, tornando-se uma das figuras mais emblemáticas da cidade.
O toque do sino anunciava celebrações, despedidas e encontros — muitos deles mediados pela escuta atenta de Padre Germano no anexo simples ao lado da igreja. Ali, diferenças sociais se dissolviam. Prefeito e trabalhador dividiam o mesmo banco, aguardando uma palavra que reorganizasse conflitos e devolvesse esperança.
Após o acidente de 1975, que o deixou paraplégico, o padre transformou a própria limitação em testemunho de força e empatia. Seu compromisso com os mais vulneráveis se materializou em ações concretas, como o Projeto Social Esperança e Vida, criado em 1997.
O reconhecimento público veio também na área da saúde, quando o hospital municipal passou a levar seu nome — Hospital Municipal Padre Germano Lauck — consolidando sua imagem como referência de cuidado e acolhimento.
Agora, ao iniciar o processo de tombamento das badaladas como patrimônio imaterial, o município não preserva apenas um som. Preserva uma atmosfera, uma memória coletiva, uma identidade.
Porque, quando o sino toca ao meio-dia, não ecoa apenas no ar.
Ecoa na história — e no legado de Padre Germano.
