O peso da esperança e o risco do atalho
A obesidade não é uma escolha, é uma patologia complexa. Quando escrevi Obesus Insanus, a intenção era justamente denunciar a ignorância humana diante dessa guerra. Hoje, ao atualizar a obra para a estante virtual, percebo que o cenário é ainda mais dramático que o da COVID-19. Enquanto o vírus isola, a obesidade exclui, adoece silenciosamente e sobrecarrega o sistema público de forma perene.
O raio-x da pandemia silenciosa
Os números não mentem e ajudam a entender por que o desespero tomou conta das prateleiras das farmácias: No Brasil, mais de 60% da população adulta está com sobrepeso, e a obesidade atinge cerca de 25%, ou seja, 1 em cada 4 brasileiros luta com a balança.
Drama na saúde pública
A obesidade é o gatilho para mais de 200 doenças crônicas, incluindo diabetes tipo 2, hipertensão e vários tipos de câncer. O “atalho” perigoso: o uso indiscriminado de análogos de GLP-1, as “canetas” como Ozempic e Mounjaro, sem acompanhamento médico pode causar de pancreatite a quadros severos de desidratação e distúrbios alimentares.
A ilusão das canetas e o risco de morte
O termo “canetas emagrecedoras” virou um mantra estético, mas o preço pode ser a vida. O uso por quem não tem indicação clínica ou — pior — a compra de versões falsificadas e manipuladas sem rigor, já resultou em internações graves e óbitos. O Mounjaro (Tirzepatida), citado no novo programa de Foz, é uma medicação potente que atua em dois receptores hormonais. Não é um “suplemento”. Sem um check-up cardiológico rigoroso e acompanhamento multidisciplinar, o que deveria ser cura vira veneno. Quem garante que o coração de um paciente com obesidade grau III suportará a mudança metabólica drástica sem os exames que, hoje, demoram meses na fila do SUS?
Um milhão que gera revolta?
A notícia de que a Secretaria Municipal de Saúde de Foz recebeu uma emenda de R$ 1 milhão para o “Programa Mounjaro” deveria trazer alívio, mas a realidade das ruas é de desânimo. O cálculo da exclusão: investimento de R$ 1.000.000,00, para um público-alvo de aproximadamente 200 pacientes, pessoas que já estão na fila da bariátrica. O problema é que em Foz, milhares sofrem com a obesidade e selecionar apenas 200 para um tratamento de alto custo, parece mais uma vitrine política do que uma solução estrutural.
O fato
A solução não está apenas na caneta. O paciente precisa de cardiologista, nutricionista e exames que a rede municipal muitas vezes não entrega em tempo hábil. O que acontece com o paciente 201? Ele continua invisível? Embora o secretário Fabio de Mello aponte o “avanço histórico”, é preciso cautela. O programa foca na Obesidade Grau II e III, mas ignora a base da pirâmide que está prestes a chegar lá. Além disso, a dependência de emendas parlamentares levanta a dúvida de como será, depois que o milhão acabar? O tratamento será interrompido, causando o temido efeito sanfona e agravando a saúde de quem já estava fragilizado? A ciência evoluiu, mas a gestão pública ainda tenta apagar incêndios com conta-gotas. A obesidade exige prevenção e acesso universal, não apenas “canetas” para poucos eleitos.
Entre a balança e o prato vazio
Se o obeso hoje sofre com a falta de acesso a tratamentos modernos, um novo grupo de “excluídos da mesa” cresce silenciosamente nas estatísticas de saúde: os celíacos e os intolerantes à lactose. Para essas pessoas, o diagnóstico, que deveria ser o primeiro passo para a cura e o bem-estar, torna-se rapidamente o início de um pesadelo financeiro e social.
Alertas sem o eco
Embora a ciência emita alertas claros sobre as restrições alimentares, o setor público parece ignorar solenemente a inflação do prato restritivo. Estima-se que, no Brasil, dois milhões de pessoas sofram da doença celíaca, mas o número de intolerantes ao glúten e à lactose é vastamente maior e, o que é pior, subnotificado por um sistema que não consegue mapear a própria demanda.
Sem subsídios e sem nada
A ineficácia pública manifesta-se na ausência total de subsídios para alimentos básicos sem glúten ou lactose. É uma distorção cruel: enquanto a cesta básica comum é desonerada, itens essenciais como o leite vegetal ou a farinha especial chegam a custar entre 300% e 500% a mais que os produtos convencionais. O resultado é um efeito dominó familiar devastador. Como um único celíaco obriga a mudança na rotina de toda a casa para evitar a contaminação, famílias de baixa renda são empurradas para a insegurança alimentar ou para o consumo de riscos. Ao negligenciar esse suporte, o Estado acaba agravando o sistema de saúde lá na frente, pagando a conta de internações e complicações severas que poderiam ser evitadas com segurança nutricional.
A ineficácia cruel
Essa falta de ação decorre, em parte, da incapacidade do gestor público em entender a natureza das condições que enfrenta. Existe um abismo entre a doença celíaca — uma condição autoimune onde o corpo ataca o próprio intestino e que exige biópsias e acompanhamento rigoroso pelo risco de câncer — e a intolerância à lactose, uma deficiência enzimática que gera quadros gastrointestinais crônicos. Ambas inflam as filas dos postos de saúde, mas a resposta política caminha a passos de jabuti.
Mercado adverso
Enquanto o mercado de produtos “fit” e “zero” explode nas prateleiras de áreas nobres, a merenda escolar nas redes municipais e estaduais segue despreparada. A exclusão para essas crianças começa no recreio, diante de um prato que elas não podem tocar. No fim das contas, a saúde pública continua operando no modo “corpo de bombeiros”. O governo prefere arcar com os custos de tratar anemias crônicas e complicações digestivas do que criar protocolos de auxílio para a compra de insumos dietéticos ou fiscalizar com rigor a rotulagem e a contaminação cruzada, que faz do dia a dia do celíaco um verdadeiro campo minado.
Opostos e ladeados
O paralelo com o programa de Mounjaro em Foz do Iguaçu é inevitável e irônico: gasta-se um milhão de reais em canetas para atender duzentas pessoas, mas não se destina um centavo para subsidiar a alimentação de quem tem restrições severas. É a consagração da política do “remédio caro” em detrimento da “nutrição estruturante”. A administração pública apaga o incêndio com medicamentos de grife, mas esquece que o fogo começa na cozinha de quem já não tem mais opção do que pôr à mesa.
O milagre além do rio e a solução em casa
Para muitos desesperados, o “milagre” da cura ou da sobrevivência alimentar parece estar apenas nas prateleiras das farmácias de Ciudad del Este, do outro lado do Rio Paraná. Cruzar a ponte tornou-se a única alternativa para quem busca preços acessíveis que o sistema brasileiro não oferece. No entanto, Foz do Iguaçu tem tudo para dar um exemplo diferente, se parar de agir apenas como compradora de remédios caros. O caminho para uma “nutrição estruturante” começa no incentivo às propriedades rurais e familiares da nossa região. Se hoje parte dessa produção já atende — de forma saudável — a rede escolar, ainda falta o passo da escala: a criação de postos de venda de alimentos especiais a preços subsidiados para a população de baixa renda.
Luz no túnel
Saúde e Educação detêm os maiores orçamentos da cidade, mas ainda falam línguas diferentes. O verdadeiro projeto inovador não seria uma emenda para duzentas canetas, mas sim a união estratégica dessas duas pastas. Imagine médicos e nutricionistas atuando diretamente dentro das escolas, identificando precocemente o rastro da obesidade e das intolerâncias antes que elas se tornem doenças crônicas. Isso sim seria prevenção real. Enquanto Foz não integrar o diagnóstico precoce na educação com o apoio à agricultura familiar, continuaremos a ser uma cidade de “bombeiros” políticos, comemorando a compra de mangueiras de ouro enquanto o fogo consome a saúde da base da nossa pirâmide social.
Rogério Romano Bonato vive brigando com a balança e por isso pesquisa mais, sabendo que deve comer menos. A coluna No Bico do Corvo é publicada com exclusividade para o Almanaque Futuro e meios eletrônicos da Rádio Cultura de Foz do Iguaçu
