A tradicional Canja do Galo Inácio completa 25 anos de fundação consolidada como um dos maiores eventos solidários do carnaval de Foz do Iguaçu. Idealizada pelo jornalista Rogério Romano Bonato, a iniciativa nasceu no ano 2000 com o propósito de resgatar o carnaval da cidade — e acabou se transformando em um movimento permanente de solidariedade.
Em entrevista ao site Almaque Futuro, Rogério — que atualmente integra o time de apresentadores e comentaristas do programa Contraponto, da Rádio Cultura — relembrou os bastidores da criação do evento e destacou a importância cultural e social da canja ao longo dessas duas décadas e meia.
“O carnaval tinha morrido”
Segundo Rogério, a ideia surgiu em um momento delicado da história do carnaval iguaçuense.
“A canja surgiu no ano 2000. O carnaval estava muito próximo do início do ano, tinha mudado a prefeitura e o carnaval tinha morrido, não existia mais. O prefeito Sammis pediu ajuda para inventar alguma coisa que devolvesse o carnaval para a cidade.”
Inspirado na tradição dos antigos bailes de clube, onde a canja era servida no fim da festa para repor as energias, ele teve o estalo:
“Canja tem tudo a ver com carnaval. Mesmo no calor, o pessoal tomava canja. Então pensamos: vamos fazer a canja.”
O nome veio de um personagem criado por ele em uma coluna humorística.
“Eu desenhava um galinho chamado Galo Inácio. Então resolvemos usar o nome: Canja do Galo Inácio.”
Da folia à solidariedade
A primeira edição oficial aconteceu em 2001 e superou todas as expectativas.
“Foi uma coisa do outro mundo. Servimos algo em torno de 30 mil porções. Sobrou alimento que foi distribuído para várias entidades.”
A proposta ganhou caráter solidário logo no início. A arrecadação passou a ser destinada a entidades voltadas à infância e juventude. A primeira beneficiada foi a Pastoral da Criança, coordenada à época pela Dra. Zilda Arns.
“Todo o dinheiro que entrava ia para a entidade. Não se descontava nada. O gás era doado, o frango era doado, tudo era voluntário.”
O sucesso foi tão grande que a canja ganhou destaque nacional já no primeiro ano, aparecendo no encerramento do telejornal Bom Dia Brasil.
A tradição da “canja abençoada”
Entre as histórias marcantes está a participação do Padre Germano, que fazia questão de provar a primeira porção.
“Ele dizia: ‘Eu quero tomar o primeiro gole de canja’. Por isso dizem que a canja é abençoada.”
Rogério relembra, com humor, que na primeira edição a canja ficou salgada.
“O padre ligou e disse: ‘Você quer matar o padre? Essa canja está muito salgada!’ Tivemos que corrigir colocando água e equilibrando os caldeirões.”
Com o crescimento do evento, vieram as adequações sanitárias e estruturais. O Provopar assumiu a organização por alguns anos, depois o Rotary Club Grande Lago passou a conduzir a iniciativa.
“É impressionante a organização deles. Hoje eu penso que a canja vai ser eterna. Eu vou embora e ela vai continuar.”
25 anos de arte nas camisetas
Um dos diferenciais da Canja do Galo Inácio é a camiseta anual, ilustrada por grandes cartunistas brasileiros. Entre os nomes que já participaram estão artistas renomados como Ziraldo, Angeli e Santiago.
Neste ano, o próprio Rogério assinou o desenho comemorativo de 25 anos.
“Fiz com o maior carinho. A Dalzira caprichou na camiseta. Ficou linda, dá para emoldurar.”
Ele ainda defende a ideia de criar uma edição especial reunindo todas as artes desses 25 anos.
Impacto que transforma vidas
Mais do que números, Rogério se emociona ao lembrar das histórias de quem foi beneficiado.
“Já recebi convite de formatura de crianças que foram ajudadas pela canja. Um médico veio me entregar o convite e disse: ‘Eu superei, consegui fazer a faculdade’. Isso é o maior prêmio.”
Durante 25 anos, Rogério nunca deixou a cidade no carnaval.
“Nunca viajei no carnaval. Tem a canja. Eu continuo lá, ajudando no que for preciso.”
Carnaval organizado e respeitoso
Além da canja, Rogério também comentou sobre o cenário atual do carnaval em Foz do Iguaçu, destacando a importância da organização e do respeito à população.
“Realizar carnaval não é simples. Precisa de documentos, aprovação dos bombeiros, do trânsito. E é importante lembrar que nem toda a população participa, então é preciso respeitar todos.”
Ele citou ainda iniciativas como a Charanga da Iolanda e o Carnaval da Saudade, reforçando que o evento deve ser inclusivo e bem estruturado.
Um símbolo iguaçuense
A Canja do Galo Inácio deixou de ser apenas um evento carnavalesco para se tornar patrimônio afetivo e cultural da cidade.
“Ela é solidária mais do que carnavalesca. Hoje o país inteiro fala da canja aqui de Foz do Iguaçu.”
Aos 25 anos, a Canja do Galo Inácio prova que tradição, solidariedade e cultura podem caminhar juntas — fortalecendo não apenas o carnaval, mas toda uma comunidade.
