A sinceridade como marketing
No Contraponto desta quinta-feira, 05/02, da Rádio Cultura de Foz do Iguaçu, o empresário Deoclecio Duarte decidiu romper com um velho hábito da política local: negar o óbvio. Assumiu, sem rubor, que é pré-candidato a deputado estadual. Tratou a confissão como virtude, simplesmente. Num ambiente onde quase todos querem disputar o cargo, mas poucos admitem, e, diante disso, dizer a verdade virou diferencial competitivo. A sinceridade não é ingenuidade — é estratégia das bem calculadas. Mas vamos também imaginar que é cedo e muita gente está queimando o fosfato, pensando, porque quando o assunto é candidatura pensar é importante.
A hipocrisia sempre é do outro
Ao afirmar que não faz sentido falar de política fingindo não querer nada com ela, Deoclécio acerta no diagnóstico e erra de propósito no enquadramento. A hipocrisia existe, sim — mas nunca do lado de quem segura o microfone. A frase “sim é sim, não é não” soa como máxima, dessas que cabem em slogan de campanha. Funciona porque simplifica um jogo que, todos sabem, raramente é simples. É um jogo dos mais complicados.
Quando perder vira vitória
A eleição de 2024 entrou no discurso como ativo político. A chapa Aírton/Deoclecio superou a casa dos 10% dos votos em um pleito esmagado pela polarização. Não ganhou, mas também não desapareceu — e isso, no vocabulário eleitoral, já conta como sucesso relativo. O desempenho é prova de força. Em política, perder com votos costuma valer mais do que ganhar sem deixar rastro. São vários os exemplos de vitoriosos que afundaram na areia movediça da incompetência.
A arte de furar bolhas
Furar a polarização virou mantra. E, de fato, qualquer candidatura que não seja esmagada por dois corpulentos locais merece ser pelo menos lembrada. Na selva, o macaco que é esperto, não fica entre o elefante e o hipopótamo. Mas, meus amigos, o subtexto é claro: existe um eleitor órfão, à espera de alguém que se diga diferente. Resta saber se esse eleitor vota de novo ou apenas protesta uma vez e adere ao silêncio.
Planilha antes do santinho
Ao falar em 25 a 30 mil votos, o empresário mostrou que a campanha já começou — pelo menos no Excel. Metade em Foz, metade no interior. Nada de messianismo, tudo muito técnico. É o tipo de fala que agrada estrategistas e assusta um pouco os adversários, porque remarão na mesma lagoa. Quando o pré-candidato fala em meta numérica, geralmente já deixou a fase do entusiasmo e entrou na da execução. Deoclecio corre o estradão e já faz ideia de onde estão seus currais eleitorais. Vai sim pisar em terreno de outros.
Foz, sempre a injustiçada
A comparação com Cascavel é quase cláusula pétrea do discurso político iguaçuense. Lá, quatro deputados estaduais. Aqui, um. A conta é repetida há anos, décadas, sempre com o mesmo tom de indignação tardia. Deoclecio a utiliza com habilidade, sugerindo que o problema não é falta de voto, mas o desperdício deles. E, curiosamente, apresenta-se como um nome capaz de corrigir a equação histórica. Otimização dos votos sempre faz parte de seu discurso. Tomara encontre eficiência na prática.
Fidelidade com intervalo
O retorno ao PL foi narrado como volta ao lar, apesar da saída estratégica recente. Duas décadas de militância ajudam a sustentar a versão. Em política, sabemos, partidos são menos ideologia e mais endereços temporários. O eleitor escuta “história”, o partido escuta “lealdade” e o projeto segue, convenientemente alinhado ao vento dominante.
Bastidores ditos com cuidado
Ao comentar o cenário estadual, Deoclécio falou como quem sabe, mas não pode dizer tudo. Citou preferências do governador, nomes que crescem e outros que agradam mais ao coração do que às pesquisas. É a fala típica de quem observa o jogo por dentro, mas ainda não recebeu e nem vestiu a camisa oficial. Nem oposição, nem adesão explícita — apenas prudência estratégica.
Empresário por opção, político por missão
No encerramento, veio o clássico: não vive da política, mas não aguenta mais ver os problemas da cidade. É um argumento antigo, testado e aprovado em diversas campanhas. Serve para tranquilizar o eleitor e blindar o candidato antes da largada. Se cola ou não, dependerá menos do discurso e mais da memória coletiva quando os panfletos se espalharem. Deoclecio leva a marca da humildade e isso avantaja.

Paulo é candidato?
Foi o que disse textualmente o Dr. Nelso Rodrigues. O Corvo ouviu como um alerta do Joãozinho avisando que o lobo estava rodeando as ovelhas. A fábula iguaçuense é diferente da contata pela vovó. Há mais lobos do que cabritos e ovelhas, portanto, Paulo lançar candidatura à deputado federal é o grito do Joãozinho que muita gente ainda não acredita. Em todos os casos, o lobo sempre surpreende primeiro os galinheiros. Paulo Mac Donald candidato é o sonho da arrumação ou desarrumação política da cidade. Ninguém imagina o que será, possivelmente nem ele. Conhecendo o sociólogo, engenheiro, empresário e político, as palavras em sua boca são: “ainda é cedo”.
Eu e o General
Não fui eu. Ao menos, não do jeito que alguns contam. O Dr. Nelso Rodrigues fez a prova dos nove e concluiu que este colunista teria sido o responsável direto por convidar o general Silva e Luna a disputar as eleições em Foz. Calma lá. O que houve, de fato, foi jornalismo em estado bruto: fui o primeiro a entrevistá-lo e o primeiro a publicar que ele cogitava encarar as urnas. A notícia caiu como granada no cenário político local. O general, bom infante, gostou da ideia, a turma se animou e a candidatura ganhou vida própria. Eu apenas fiz o que jornalista faz quando aparece um furo: publiquei. O resto foi consequência — e barulho.
O Generauuuuuuu… e eu
Como o gato do Paulo, que não mia — comenta —, o caso ganhou folclore. À época da eleição, se eu fosse exibicionista, poderia ter desfilado em carro aberto, acenando para a multidão. Hoje, precisaria circular blindado, à prova de som externo e interno. Eita que o povo fala! Outro dia, levei um pito memorável de uma amiga que beira os 100 anos: “Mas o que foi que você inventou, seu Bonato?”. Nem deu tempo de fazer cara feia. Em Foz, até furo jornalístico envelhece rápido — vira anedota, depois lenda urbana. E o jornalista? Esse segue sendo culpado por antecipar o futuro. É uma barbaridade ou não é?
Exoneração a pedido… de quem?
Oficialmente, as exonerações foram “a pedido”. Sempre são. Ninguém nunca é demitido — apenas resolve, de repente, pedir para sair depois de meses de reclamações públicas, pressão de vereadores e impaciência da população. As más línguas — sempre elas — juram que uma das agora ex-exoneradas já não conseguia nem relaxar no salão de beleza, tamanho o constrangimento. Dizem também que o verdadeiro dono da caneta não mora na sala principal do Palácio das Cataratas, mas atende pelo nome de General Garrido. O detalhe curioso é que, apesar do corte, algumas “protegidas da corte” seguem firmes, agora em funções mais discretas, assessorando o governo. Sai do palco, entra pelo bastidor. Política também tem elevador de serviço.
Reforma administrativa ou troca de cadeiras?
O prefeito Silva e Luna finalmente tirou da gaveta a prometida reforma administrativa — aquela anunciada no fim de 2025 e entregue só antes do Carnaval. Sai secretária de Obras, sai procurador-geral, sai superintendência do Foztrans, todas as cabeças em apenas uma bandeja. Entra interino daqui, cumulativo dali, diretor que vira secretário e secretaria que simplesmente deixa de existir. A caneta trabalhou, mas o desenho lembra mais rearranjo de móveis do que mudança estrutural. No fim, fica a sensação conhecida: muda o organograma, mantém-se o CPF político e segue o baile. E com direito ao Diário Oficial. Mas segundo fontes palacianas (tem isso em Foz) o facão não adornou outros pescoços porque a bandeja era pequena. Os generais estariam esperando passar a Quarta-feira de Cinzas para completar a roçada.
Hereditariedade política e dor no bolso
Mal o colunista colocou o pé na estrada, o pedágio já tratou de dar as boas-vindas — com a sua malfadada tarifa. A dor no bolso é democrática, mas a briga ganhou contornos familiares quando Requião Filho resolveu bater de frente com as cancelas. Cena conhecida: o pai, Roberto Requião, batia na mesa; o filho bate com discurso pré-eleitoral. Ambos enfrentaram as concessões, mas o sistema seguiu intacto. No passado, os contratos eram tão blindados que nem o governador dizia conseguir vê-los. Hoje, os pórticos são transparentes, eletrônicos e igualmente implacáveis. Mudou a tecnologia, não o efeito: paga-se antes, reclama-se depois — e a cancela nunca perde.
A indignação que acorda tarde
Na Assembleia Legislativa do Paraná, deputados da base governista protagonizam uma súbita epifania cívica. Os mesmos que ontem aplaudiam o Palácio agora gritam “absurdo” contra o pedágio. É a indignação parece ser seletiva: intensa, ruidosa e perfeitamente sincronizada com o calendário eleitoral. Para completar o roteiro, a culpa é terceirizada para Brasília e para a ANTT, como se o modelo não tivesse sido desenhado, aprovado e vendido aqui mesmo, com fotos, sorrisos e discursos sobre modernização.
O pai da criança sempre mora longe
Requião Filho acerta ao apontar o método: o pedágio é do Ratinho Junior, mas a culpa é sempre do “outro”. O modelo foi gestado localmente, com entusiasmo privatista, mas a cobrança impopular ficou para a União administrar. Cortar fita rende capital político; cobrar tarifa rende desgaste — e aí a memória some. O povo está furioso e com razão, leia-se os usuários, produtores, turistas, viajantes, ninguém está satisfeito. Pedágio é afinal, exercício de futuro, porque a gente paga hoje para usufruir de uma estrada melhor daqui 20 anos! Uma boa sexta-feira a todos e um excelente final de semana! Segunda-feira estaremos aqui! Inté.

Rogério Bonato escreve a coluna No Bico do Corvo há bem mais de duas décadas e com exclusividade para o Almanaque Futuro e meios eletrônicos da Rádio Cultura de Foz do Iguaçu, onde integra a bancada do programa Contraponto.





















































