A Expressão do Vestido de Dora

Um conto sobre vida, tempo, gerações, memórias...

A Expressão do Vestido de Dora - Imagem criada por IA.

Uma caixa de madeira, linhas coloridas, agulhas de vários tamanhos, tesouras, alguns trecos, um desenho guardado há anos, um pedaço de tecido e muitas lembranças que despertaram no momento em que eu abri aquela folha toda amarelada. Era o croqui do vestido mais lindo que eu um dia fiz e foram tantos os vestidos feitos por mim, que até me perco nas contas.

Ver aquele desenho me inundou de sensações que não acreditava que sentiria mais. Em um piscar de olhos fui levada à uma viagem no tempo, deixei o meu quarto e fui me visitar. Consegui deixar a imaginação fluir e parei na frente do portão de madeira de casa, a pequena casa que morei quando vivi na cidade do Rio de Janeiro. E lá naquele portão parei para me ver por algum tempo…

 

Era mais um fim de tarde daqueles repletos dos afazeres diários da casa, dos filhos e de todas as funções que acabavam acumulando durante a semana. Já tinha acabado de preparar o jantar. Na verdade tinha improvisado uma sopa de abóbora com carne seca, para aproveitar o refogado do almoço. Estava feliz, havia sido chamada mais uma vez para compor o quadro das costureiras da minha escola de samba favorita e aqueles seriam meses de muito trabalho,  mas de fartura à mesa e isso me deixava mais tranquila para me dedicar ao que tanto amava: costurar.

Eu era considerada uma grande modista, diziam que eram poucas as costureiras que conseguiam fazer peças tão bem acabadas como as minhas e no tempo que eu conseguia, acredito que este era o motivo pelo qual eu era responsável pelas fantasias das alas especiais e das porta-bandeiras, as grandes destaques na época.

Assim passava dias e noites cortando, costurando e bordando as minhas obras de arte, cada peça era única, mesmo que fossem confeccionadas centenas de peças “iguais”. Cada uma tinha algo de muito especial, cada uma era cortada ou bordada enquanto eu escutava um novo relato de Gomes Júnior, no seu programa diário na Rádio. Não perdia um! Eram casos verídicos, com muito suspense e eu ficava ali, acompanhando ansiosa. Curiosa que sempre fui, queria saber do final. Não acreditava mais em histórias com finais felizes, mas me deixava levar e escutava tudinho acreditando que uma ou outra poderia ser diferente, mas isso conto outra hora.

Lembrei que naquela noite eu iria receber a primeira porta-bandeira da escola, para a checagem das medidas que eu havia recebido junto com o croqui e os tecidos. Dora era além de linda, uma simpatia e fazia questão de vir até a minha casa. Quando dava tempo, eu até fazia um bolinho pra gente comer tomando café. Adorávamos conversar sobre um pouco de tudo, enquanto ajustávamos o longo e encantador vestido. Entre uma medida e outra ficávamos imaginando e tagarelando sobre o dia do desfile, que naquele ano seria chamado de “O Carnaval da Paz”.

 

O enredo havia sido escolhido. A arte seria a grande protagonista! “Honra ao Mérito”, uma homenagem aos artistas que protagonizaram 25 anos antes, a Semana da Arte Moderna de 1922, um selar da harmonia entre as duas cidades, e a cultura nacional. 

O vestido de Dora era diferente dos tradicionalmente confeccionados para ela. Aquele ano o vestido era um grande mosaico de cores, que trazia tão lindamente a representatividade do Grupo dos Cinco para o modernismo brasileiro, movimento que eles apresentaram.

 

Estudei muito pouco, meu pai achava que estudar era uma grande perda de tempo e que eu, como mulher, tinha mesmo era que ajudar minha mãe a cuidar dos meus 5 irmãos. Eu era a mais velha e quando minha mãe ia para a roça com meu pai, eu ficava com todas as responsabilidades da casa; e olha que eu era apenas 3 anos mais velha que o segundo a nascer e 9 anos da caçula. Uma escadinha. Mal sabia cuidar de mim e tinha que cuidar deles também, então, não tive tempo para muita coisa e só consegui estudar os 4 anos iniciais. Aprendi a ler e a escrever, o que me abriu portas anos depois.

Gostava muito de ouvir histórias, por isso quando podia conversava sobre assuntos além dos de casa. Fui criada com uma divisão significativa das atividades permitidas para as filhas e para os filhos, mas via o mundo por outro viés e acreditava que podia fazer diferente. Fui tida como rebelde, peralta e fui duramente repreendida quando meu pai soube que eu estava fazendo o curso de corte e costura, mas não desisti. Continuei indo escondida e me formei. Hoje sei que fui de vanguarda, que nasci muito além daquele tempo. 

Penso que é por isso que me identifiquei tanto com as entregas dos modernistas, principalmente das mulheres à frente do movimento, e costurar o vestido de Dora aquele ano era como se eu reafirmasse, pra mim mesma, as possibilidades que consegui alcançar com meus esforços, como uma máquina de costura comprada de segunda mão e paga em prestações.

Sei que posso ter causado dor, que posso ter decepcionado meus pais e ter feito escolhas que nos foram muito caras, mas quem não? Também sei que foram estas mesmas escolhas que me fortaleceram tanto. Tenho orgulho de quem me tornei, mesmo um pouco dura demais comigo mesma. Lembro que pedia em minhas orações que minha lucidez fosse preservada e que eu pudesse continuar produzindo arte com as minhas mãos por muito tempo.

Queria ver meus filhos crescerem, meus netos nascerem e segurar meus bisnetos no colo. Queria contar das coisas que vivi, que aprendi, das costuras sem linhas que fiz por tantas vezes.

Queria semear ainda que de maneira muito simples, o uso da minha língua materna, não é a nossa oficial, mas é a que traz as minhas raízes. Queria ver minhas netas cantando as canções que a minha avó cantava, mas sabia, no fundo, no fundo, que tudo isso dependeria, também, das escolhas que elas fizessem. A mim, caberia estar ao lado e respeitar suas escolhas, caso alguma decidisse fazer diferente, como um dia eu fiz!

Não tive a intenção, mas posso ter causado vergonha, meus irmãos falavam constantemente que sim e por isso fui duramente criticada, perdi o “direito” de permanecer como membro da minha família. Meus familiares pararam de falar comigo, não me deixaram ver minha mãe nem em seu leito de morte e foi a arte, foi a arte que me salvou! E nela me apeguei.

Não trabalhava demais, na verdade era a partir do que fazia com as minhas mãos que encontrava sentido para continuar. Sentia a alegria escondida de mim mesma por muitos anos. Confesso que amei perdidamente o homem pelo qual deixei tudo e fugi. Foi uma fuga para a esperada felicidade, que não aconteceu plenamente. O preço me foi caro, mas paguei numa tacada só, um tudo ou nada que resolvi arriscar e viver. 

O vestido de Dora era a representação da minha redenção! Foi este o sentimento que me veio quando vi o croqui pela primeira vez. Era o meu seguir… E em cada lantejoula bordada, um reflexo de mim mesma, das minhas histórias espelhadas nos acontecimentos conturbados, nas rupturas, nas pontes reconstruídas e no mais profundo amor pelos meus.

 

 No vestido, um pouco do que as alas traziam. Os milhares de laços azuis inspirados na tela “Moça de Fita Azul” de Anita Malfatti, o amarelo do “O Homem de Amarelo”, também de Anita e do sol do “Abaporu”, de Tarsila do Amaral. Tinha a barra cinza do “Manifesto Pau-Brasil” de Oswald de Andrade e um colorido sem formas definidas representando a “Paulicéia Desvairada” de Mário de Andrade e Menotti Del Picchia, em seu “Poema do Vício e da Virtude”. Del Picchia foi o único dos cinco que em 1933 entrou para a Academia Brasileira de Letras ocupando a cadeira de número 28 originalmente de Inglês de Sousa.

Villa-Lobos em ritmo de samba teve sua ala de chinelos e vaias, de suas composições brilhantes expressando a linguagem peculiar da música brasileira. Apesar da recusa do público na primeira aparição em 22, o compositor seria o nosso maior expoente da música do modernismo brasileiro. Sua ala abriu a passagem para a bateria: “Os Tabajaras do Samba” impecavelmente caracterizados como Maestros e vestidos de azul.

A ala das baianas, toda de branco, tinha seu destaque nas esculturas e pinturas trazidas pelas integrantes, como a pintura oficial do catálogo do evento de autoria de Di Cavalcanti. Com seu bailar em movimento de ir e vir, as baianas representavam a chegada do novo, que tinha vindo para ficar e que inspiraria outros movimentos artísticos como o Tropicalismo e a tão brasileira Bossa Nova.

Claro que a crítica não poderia ficar de fora. A oposição é necessária e apareceu na penúltima ala, a ala de Monteiro Lobato e sua ferrenha publicação que incentivou e abriu espaço para que a Semana de 22 acontecesse poucos anos após seu “artigo-bomba” em 1917.

A última e esperada ala foi em honra aos representantes das artes participantes da semana, que desfilaram celebrando a liberdade. Em 1922 o Brasil celebrava 100 anos da sua Independência e assim, ao som de: “Liberdade,  liberdade!” a exuberante Águia Azul e Branca fez-se presente encerrando o desfile, em 18 de fevereiro de 1947, da escola de samba mais uma vez campeã, a sétima consecutiva! 

A arte, naquele dia, ocupou seu lugar! Brilhante de início ao fim, aplaudida e compreendida como o canal de expressão da humanidade presente em cada um de nós. Jamais esquecerei aquele desfile e o que ele representou, não apenas para os que ali desfilaram, mas para todos que de uma maneira ou de outra estiveram envolvidos, na cadeia de tantas pessoas e famílias alcançadas, no sustento, no trabalho, no suor, nas muitas lágrimas e muitas alegrias!

“O Carnaval da Paz”, não poderia ter sido chamado ou ser lembrado de outra maneira. A paz que senti desde aquele dia, que me deixou em pé em momentos tão desafiadores. As pazes que fiz com a minha liberdade de ser eu mesma, com as minhas raízes, com meus antepassados e descendentes, com a vida! Suspirei profundamente!

 

Em mais um piscar de olhos voltei para o meu quarto, estava ainda em frente da minha caixa de costura. Percebi que segurava firmemente o desenho, agora molhado com algumas lágrimas de reconhecimento. Ah! Como agradeço por ter podido viver aqueles anos! Deles, trago o melhor de mim! Trago, também, a costura que me acompanha até aqui, mesmo quando já não consigo mais enxergar e colocar a linha na agulha, me pego as vezes costurando ao vento, com as minhas mãos em movimentos leves sobre o meu corpo adormecido.

 

Hoje, bem perto do dia da minha morte e com o coração inundado de tudo o que vivi, tenho poucos desejos, mas certamente continuo pedindo em minhas orações: Que a arte possa continuar ocupando o seu lugar aqui, ali, lá ou acolá! E que ela seja respeitada como fonte de tanta inspiração, de tanta expressão. Que seja tida como a voz de um povo, não a única, pois não somos únicos, mas uma das, e que seja preservada mesmo na evolução dos meios de comunicação, dos dias e da vida. Que a arte continue… e que nela eu permaneça!

Estella Parisotto Lucas 

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Escrevi, em 02/02/2022 este conto para compor a Antologia “A Expressão da Arte em 22!”, publicada pela Academia Itapemense de Letras, da qual com muita honra faço parte, ocupando a cadeira de número 33. A antologia foi publicada naquele mesmo ano.

É a minha homenagem para a minha avó paterna. No texto narro, respeitosamente, histórias que ouvia ela contar, misturadas com fatos reais vividos por mim e por tantas outras pessoas comuns, assim como eu e você que chegou até aqui.

Finalizo esta nota informando que a Portela foi a escola de samba campeã em 1947, no chamado “O Carnaval da Paz” com o enredo “Honra ao Mérito” que contava a história do aviador Santos Dumont. Com liberdade poética adaptei o enredo para relacioná-lo ao tema proposto para a antologia: A Semana da Arte de 1922.

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