Foz do Iguaçu celebra 50 anos de devoção a Iemanjá

Festa une fé, cultura afro-brasileira e resistência histórica na Praça da Paz

Foz do Iguaçu vive um momento histórico ao celebrar os 50 anos da Festa de Iemanjá, uma das mais tradicionais manifestações religiosas e culturais da cidade. Realizada nos dias 1º e 2 de fevereiro, a celebração marca meio século de fé, resistência e preservação das tradições afro-brasileiras, reunindo religiosos, devotos e a comunidade em geral na Praça da Paz, no centro da cidade.

A festa teve início em 1976, idealizada pela Yalorixá Maria Benedicta de Souza Macedo, conhecida como Vovó Benedicta do Reino de Oxalá. Pernambucana, que viveu em Santos antes de se estabelecer em Foz do Iguaçu, ela iniciou a homenagem a Iemanjá de forma simples e humilde, em um período marcado por preconceito e intolerância religiosa. Mesmo diante das dificuldades, manteve sua fé inabalável e deu origem a uma tradição que hoje se consolida como um dos maiores eventos religiosos da fronteira.

Ao longo dos anos, a celebração cresceu, ganhou visibilidade e apoio institucional, contando atualmente com a parceria da Prefeitura de Foz do Iguaçu, Fundação Cultural, Secretaria Municipal de Turismo, Itaipu Binacional, Parquetec e outras entidades. Para os organizadores, os 50 anos da festa representam um verdadeiro baluarte de resistência, amor, dedicação e esperança, não apenas ao culto de Iemanjá, mas também à memória de Vovó Benedicta, considerada um exemplo de vida e fé.

A programação tem início no domingo (1º), com abertura oficial às 8h45, na Praça da Paz. O evento é caracterizado como socioreligioso e cultural, reunindo exposição afro com homenagens à Vovó Benedicta, apresentações de afoxé, maracatu, balé afro, capoeira, samba, escola de samba, além de manifestações artísticas e culturais que exaltam a ancestralidade africana. As atividades da manhã seguem até as 11h15 e retornam no período noturno, das 19h às 20h45.

Na segunda-feira (2), data dedicada aos rituais centrais da celebração, os participantes voltam a se concentrar na Praça da Paz a partir das 13h30. De lá, parte a tradicional carreata com a imagem de Iemanjá, percorrendo as avenidas JK, República Argentina, Brasil e General Meira até o Porto Katamaram, onde acontece a procissão fluvial. A imagem da Rainha do Mar é conduzida em embarcação, acompanhada por cantos, rezas e toques de atabaques, com segurança garantida pela Marinha do Brasil, por meio da Capitania Fluvial do Rio Paraná.

Durante a procissão, são ofertados elementos simbólicos como flores brancas, águas de cheiro, alfazema e flor de laranjeira, além da tradicional soltura de pombos brancos, em um pedido coletivo por paz, proteção e harmonia. Após o retorno da embarcação, a programação segue novamente na Praça da Paz, com apresentações culturais, danças de orixás, capoeira, samba e a participação de ogãs, encerrando o evento por volta das 21h.

Iemanjá é reverenciada nas religiões de matriz africana como a Orixá das águas salgadas, senhora dos mares e grande mãe protetora. Seu nome carrega o significado de maternidade e cuidado, sendo associada à proteção das famílias e à força de transformar caminhos e pensamentos. Embora pertença às tradições afro-brasileiras, sua devoção ultrapassa barreiras religiosas, reunindo pessoas de diferentes crenças que participam da festa para agradecer, pedir bênçãos e renovar a fé.

No sincretismo religioso, Iemanjá é associada a figuras do catolicismo, como Nossa Senhora da Imaculada Conceição, Nossa Senhora dos Navegantes e Nossa Senhora das Candeias, celebradas no mês de fevereiro, reforçando a ligação simbólica com as águas e a maternidade.

Além do aspecto espiritual, a celebração também transmite uma mensagem de preservação ambiental. Segundo a tradição, o mar devolve tudo aquilo que não lhe pertence, reforçando a responsabilidade humana com o cuidado das águas e da natureza.

Ao completar 50 anos, a Festa de Iemanjá reafirma seu papel como espaço de fé, cultura, memória e resistência, fortalecendo o respeito à diversidade religiosa e consolidando Foz do Iguaçu como um território de convivência plural, onde diferentes crenças se encontram em nome da paz e da ancestralidade.

Sair da versão mobile