A meta, a trave e o título
“A perfeição é uma meta… defendida pelo goleiro”. Gilberto Gil, com a sabedoria dos que enxergam a nota entre as cordas, já avisava: o absoluto é um estorvo. O humano, essa criatura de paixões e equívocos, passa a vida a farejar o “ótimo” enquanto tropeça no razoável. Para legisladores e governantes, a perfeição é uma utopia de mármore; para o povo, é apenas o sonho de um asfalto sem buracos. Por essas e outras, minha última coluna incomodou os “donos da verdade”. Ai, que peninha. A verdade, sabem todos, é uma viúva que ninguém quer consolar.
E quem não gostaria?
Cada vez que a roleta do poder gira e um novo eleito assume o trono, eu acendo minhas velas. Torço com o fervor de um devoto no Maracanã. Torcer contra a cidade só para ver o adversário cair é “bola nas costas” no próprio destino. Sonho com prefeitos e deputados “ótimos” como quem sonha com um gol de placa aos 45 do segundo tempo. A oposição que me perdoe, mas o bem comum não tem partido.
E lá vem eleição!
Passada a euforia das festas, o que fica não é a ressaca da cidra e sim o amargor do IPVA e do IPTU. Não há mais “corvinhos” voando pela sala, mas na vizinhança o que se ouve é o lamento do uniforme caro e da lista de material escolar que não cabe no benefício do cartão. E 2026, senhores, é ano de Copa. O tempo não corre, ele voa como um ponta-esquerda. É piscar o olho e o Papai Noel já estará aterrissando na Avenida Brasil, reclamando da decoração. Mas antes, há a geopolítica, esse jogo bruto.
“Go Home”
A perfeição, já disse o mestre Gil, é meta defendida pelo goleiro. E em 2026, o “paredão” veste o topete de Donald Trump. Na Copa da América do Norte, o drible virou gincana migratória. Enquanto os craques desfilam no tapete vermelho, o torcedor vive a “via-crucis” do visto: um esporte radical onde o VAR é o seu histórico no Facebook e o impedimento é dado na alfândega. É a ironia do futebol: um banquete de união servido por quem adora erguer muros. Para bater esse pênalti nos EUA, não basta ter o pé de anjo; é preciso convencer o guarda de que você só quer ver o jogo e ir embora. Go home!
Depois da Copa…
A maior torcida pelo hexa não está nas arquibancadas, mas nos corredores de Brasília. Se o caneco vier, Lula, corintiano de quatro costados, tratará de morder sua fatia de glória. Já a oposição vive o dilema do século: torcer contra o Brasil ou deixar que o verde e amarelo das ruas — marca registrada do bolsonarismo — vire comício de libertação ou lançamento de herdeiro político. No Brasil, o apito final da Copa é apenas o tiro de partida para o palanque.
E a eleição em Foz?
O leitor, esse curioso insaciável, quer saber: e o Corvo? O Corvo não enrola, ele apenas prepara o espírito. O gramado de Foz tem de tudo: titulares, reservas e aqueles que ainda estão na “peneira”. Em campo, os deputados Vermelho, Giacobo, Luciano e Matheus correm para manter a posse de bola. Mas o gramado é acidentado, cheio de obstáculos olímpicos. Na política, como na vida, é preciso ser esperto para não cair no primeiro carrinho, ou tropeçar na bola.
O banco de reservas
De colete, aquecendo na lateral, vemos Deoclecio Duarte, Aírton José e Ricardinho Nascimento. Há quem diga que até o General Silva e Luna e o eterno Paulo Mac Donald já admitem que a chuteira ainda serve. Paulo, aliás, não desprega os olhos do Palácio Cataratas nem quando dorme — é um namoro antigo que nunca vira divórcio. Já o General sabe que o voto de direita na fronteira é um exército de convicções rochosas.
A ala aspirante e a peneira
Tem gente pegando carona no vácuo, como Zé Elias no rastro de Moro; ou dobradinhas ensaiadas entre Duso e Valentina. E, claro, a turma da “peneira”: vereadores que se dizem candidatos a tudo só para não sumirem da vitrine. Disputam espaço com líderes sindicais e “inspetores de quarteirão” que fazem barulho de foguete e estalo de salão. Gente que descobriu que a vida pública não é mel na chupeta e agora tenta uma janelinha para respirar. E há também os que “aspiram” de fato os votos, gente que vem pescar eleitor, mas isso é tema de outra coluna. Na peneira há nomes como Chico Brasileiro, Rosa Geronymo e até Reni Pereira, creiam, ensaiando candidatura. Abordar assuntos assim exigirá muito esforço de pensamento.
E o eleitor?
Eis o grande enigma. O eleitor é o goleiro de Gilberto Gil: é ele quem decide se a bola entra ou se o sonho do político bate na trave. Não confundam eleitor com torcida. A torcida grita, mas quem decide o placar é o voto. Em 2026, teremos que calçar as meias e amarrar as chuteiras com dignidade. Entre o medonho e o ótimo, a escolha é nossa. Ou marcamos o gol da vida, ou nos enfiamos de vez no buraco da história. Com ou sem o juiz apitando.
Rogério Romano Bonato faz das suas para escrever a coluna No Bico do Corvo, com excluisvidade para o Almanaque Futuro e Rádio Cultura de Foz do Iguaçu! E ainda atende ao Instagram e redes sociais!
