Entre a Vida e a Palavra: Euclides da Cunha e o Território da Experiência

Vida, obra e tragédia se entrelaçam na trajetória do autor de Os Sertões, revelando conflitos humanos e nacionais que nos atravessam constantemente..

Euclides da Cunha, escritor brasileiro | Imagem: Reprodução | Publicado originalmente em Nova Brasil

Há escritores que inventam mundos. Outros, como Euclides da Cunha, parecem ter sido inventados pela própria vida que viveram. No dia em que celebramos seu nascimento, a pergunta que ecoa não é apenas quem foi Euclides da Cunha, mas o quanto da sua vida se escreveu em sua obra — e o quanto sua obra acabou por reescrever a própria vida.

Autor de Os Sertões, livro que atravessou o século e segue essencial, Euclides foi engenheiro, jornalista, militar e um observador rigoroso do Brasil profundo. Sua trajetória pessoal, no entanto, esteve longe da estabilidade: foi marcada por deslocamentos, conflitos ideológicos, frustrações profissionais e um drama íntimo que culminaria em um dos episódios mais trágicos da história literária brasileira.

Ao acompanhar a Guerra de Canudos, não levou ao sertão apenas o olhar técnico do engenheiro ou a pena do jornalista. Levou também as inquietações de um homem em permanente estado de tensão, tentando compreender um país fragmentado enquanto lidava com suas próprias fissuras internas. Em Os Sertões, a terra, o homem e a luta não são abstrações — são forças vivas, em confronto permanente.

Essa mesma lógica do confronto atravessou sua vida pessoal. Em 1909, ao tentar enfrentar o amante de sua esposa, Ana Emília Ribeiro, Euclides da Cunha foi morto a tiros por Dilermando de Assis. O episódio ficaria conhecido como a “Tragédia da Piedade”, nome que carrega não apenas o local dos acontecimentos, mas o peso simbólico de uma história marcada pela violência e pela dor.

A tragédia, porém, não se encerrou ali. Anos depois, um dos filhos de Euclides, movido pelo desejo de vingar a morte do pai, também acabaria morto por Dilermando de Assis, aprofundando ainda mais o rastro de perdas e tornando esse episódio um dos mais sombrios e complexos da nossa história cultural.

Há quem diga que a obra reflete a vida. Em Euclides, talvez seja mais justo dizer que vida e obra se espelham de forma dolorosa. Sua escrita carrega o peso de quem acredita na razão, mas esbarra repetidamente na violência — histórica, social e humana.

Celebrar Euclides da Cunha no dia do seu nascimento* é reconhecer que grandes livros nem sempre nascem da serenidade, mas do embate. Que a literatura pode ser um esforço radical de compreensão — do país e de si mesmo. E que, às vezes, nem mesmo a lucidez é capaz de proteger o homem das tragédias que ele tão profundamente soube narrar.

Entre a vida e a palavra, Euclides deixou um legado que ainda nos desafia: compreender o Brasil exige coragem para encarar seus conflitos — inclusive aqueles que atravessam o íntimo das famílias e a própria condição humana.

Até o próximo porto!

Estella Parisotto Lucas

Nota 1: Euclides da Cunha nasceu em Cantagalo, Rio de Janeiro em 20.01.1866 e faleceu em 15.08.1909 em Piedade, Rio de Janeiro.
Fontes: Imagem: Euclides da Cunha publicado originalmente em: https://novabrasilfm.com.br/arte-e-cultura/literatura/livros-para-conhecer-o-escritor-euclides-da-cunha
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