Associação aponta Foz como referência nacional na integração de migrantes e refugiados

Presidente da entidade afirma que políticas públicas, atuação da UNILA e diálogo institucional fazem da cidade um exemplo positivo de acolhimento no Brasil

Haitianos chegam no Brasil por Foz do Iguaçu (Foto: William Brisida/Itaipu Binacional)

Foz do Iguaçu tem se consolidado como um dos principais exemplos de integração de migrantes e refugiados no Brasil. A avaliação é de Julien Roldy, presidente da Associação dos Migrantes, Indígenas e Refugiados do município, que participou do programa Contraponto – a voz do povo. Segundo ele, a cidade reúne fatores institucionais, sociais e educacionais que favorecem o acolhimento e a inclusão de pessoas de diferentes nacionalidades. “Foz é uma cidade onde o migrante consegue trabalhar, estudar e viver com dignidade”, afirmou.

De origem haitiana e atuando como guia turístico, Julien preside uma associação que reúne cerca de 150 associados de 23 nacionalidades. A entidade atua na defesa de direitos humanos e na proposição de políticas públicas, com participação direta no Comitê Municipal de Imigração. Entre as pautas defendidas está a efetiva implementação do Plano Municipal de Imigrantes, aprovado no fim da gestão anterior. Para o presidente, a atual administração tem demonstrado maior capacidade de execução. “Hoje existe diálogo constante com secretarias, Polícia Federal, universidades e outros órgãos. Isso faz diferença na prática”, destacou.

Julien Roldy, presidente da Associação dos Migrantes, Indígenas e Refugiados de Foz do Iguaçu. (Foto: William Brisida/Itaipu Binacional)

Durante a entrevista, Julien também defendeu a concessão do direito de voto em eleições municipais a migrantes com residência permanente. Ele argumenta que a exclusão política contribui para a invisibilidade dessa população nas decisões públicas. “Quando o migrante não vota, ele não entra no radar das políticas públicas”, afirmou. Segundo ele, a proposta já encontra respaldo em setores diversos do Congresso Nacional e integra um debate mais amplo sobre cidadania e participação democrática.

Ao abordar a política migratória, o presidente da associação destacou que o Brasil possui uma das legislações mais avançadas do mundo, servindo de referência internacional. “O Brasil é estudado fora do país por causa da sua lei de migração, que é moderna e baseada em direitos humanos”, disse. De acordo com Julien, pesquisadores europeus, especialmente da França, têm buscado compreender o modelo brasileiro de acolhimento e experiências locais como a de Foz do Iguaçu.

Entre fronteiras e recomeços, o migrante que chega a Foz traz trabalho, estudo e esperança no passaporte (Foto: William Brisida/Itaipu Binacional)

Julien também criticou discursos que associam migração a problemas sociais e desemprego. Segundo ele, essas narrativas ignoram dados e a realidade do mercado de trabalho. “O migrante geralmente ocupa vagas que ninguém quer ocupar”, afirmou. Em Foz do Iguaçu, disse, é raro encontrar haitianos em situação de rua. “Aqui, o haitiano trabalha, estuda, paga imposto e contribui com a cidade”, ressaltou.

A Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) foi citada como um dos pilares desse processo de integração. Egresso da instituição e integrante do Conselho Superior, Julien afirmou que o modelo da universidade desperta interesse nacional e internacional. “A UNILA é um projeto que deu certo e que o mundo quer entender”, disse, ao destacar a diversidade de nacionalidades e o papel da instituição na formação acadêmica e social dos migrantes.

Sobre a chegada de haitianos à região, o presidente contestou informações alarmistas divulgadas nas redes sociais. Segundo ele, não há fluxo massivo de permanência em Foz do Iguaçu. “A maioria das pessoas está apenas em trânsito, com visto humanitário ou reunificação familiar”, explicou. Julien alertou ainda para a atuação de grupos criminosos que exploram migrantes por meio da venda ilegal de vistos. “Quem vende visto é criminoso. O migrante é vítima desse esquema”, afirmou.

Ao contextualizar a crise no Haiti, Julien citou fatores históricos e estruturais, como dívidas internacionais, intervenções estrangeiras e a destruição da base produtiva do país. “O Haiti foi condenado historicamente a pagar pela própria independência”, disse. Apesar disso, ele destacou a resiliência do povo haitiano. “A educação é vista como a única saída, mesmo com muito sacrifício”, afirmou.

Para o presidente da associação, Foz do Iguaçu demonstra que a migração pode ser sinônimo de desenvolvimento, diversidade e inclusão. “O migrante aqui é estudante, trabalhador, profissional qualificado e cidadão ativo”, concluiu. “Foz mostra que a migração funciona quando há política pública, diálogo e respeito.”

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