Lembrar de James Joyce é quase sempre lembrar de um primeiro encontro difícil. Um livro aberto que parecia resistir, frases que não se comportavam, palavras que escapavam do sentido imediato. Mas, com o tempo, a gente entende: Joyce não queria ser fácil. Queria ser verdadeiro.
Considerado um dos maiores escritores irlandeses — e um dos pilares da literatura moderna —, Joyce não escreveu apenas histórias. Ele reorganizou a maneira como a literatura poderia existir. Em suas obras, o tempo se dobra, o narrador se fragmenta e a linguagem passa a acompanhar o movimento do pensamento, com suas interrupções, repetições e desvios.
Em Dublinenses, ele revelou a vida cotidiana como território de pequenas epifanias. Em Retrato do Artista Quando Jovem, acompanhou o nascimento de uma consciência criadora. Em Ulisses, transformou um único dia comum em uma epopeia literária. E em Finnegans Wake, foi ainda mais longe: dissolveu fronteiras entre idiomas, sons e sentidos, criando uma escrita que parece sonhar acordada.
Talvez por isso Joyce tenha encontrado, mais tarde, uma escuta atenta fora da literatura. A Psicanálise, especialmente a partir de Jacques Lacan, reconheceu em sua obra algo familiar: a linguagem funcionando como pensamento vivo, antes de qualquer organização racional. Lacan dedicou seminários inteiros a Joyce e sugeriu que sua escrita operava como um “sinthoma” — não um problema a ser resolvido, mas uma forma singular de sustentação subjetiva. Como se Joyce tivesse feito da escrita um modo de se manter inteiro no mundo.
Há quem diga que Joyce não queria ser interpretado, mas atravessado. Ele próprio parecia saber que sua literatura tocava camadas profundas da experiência humana. Em uma de suas frases mais lembradas, escreveu:
“A história é um pesadelo do qual estou tentando acordar.” (Ulisses – 1922)
E talvez seja isso que sua obra continue fazendo conosco: acordando-nos para a complexidade do que somos. Joyce nos ensinou que a linguagem não serve apenas para contar — ela pensa, sente e falha. E é justamente aí que reside sua potência.
Lembrar James Joyce (no seu aniversário de morte: 13.01.1941 – Zurique – Suiça) é deixar um convite para navegarmos por águas menos tranquilas, onde literatura e inconsciente se encontram. Um autor que não nos conduz pela mão, mas nos chama para escutar — inclusive aquilo que ainda não sabemos dizer.
Até a próxima parada!
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Imagem: Publicada em: https://blog.estantevirtual.com.br/2022/02/02/os-140-anos-de-james-joyce
