Quantidade não determina qualidade

Entidades se unem e prometem enfrentar a proposta de aumento no número de vereadores. Não é possível que diante da posição clara da sociedade os parlamentares insistam no casuísmo dos partidos.

Só mesmo apostando na máxima de que o povo tem memória curta. Pagarão o preço das críticas e sofrerão o peso do posicionamento contrário aos interesses coletivos.

Ninguém consegue entender a postura radicalizada dos defensores da proposta. Até parece que os partidos se imaginam acima da vontade do próprio eleitor.

Está claro que a população não deseja mais políticos. Anseia, sim, por políticos competentes e compromissados com as causas populares. Políticos aptos para o desempenho da função legislativa.

A classe política não arregimenta condições de afrontar a sociedade. Está marcada negativamente. Ainda que persistam os idealistas e verdadeiramente vinculados à ética, são sobrepujados pelos venais e oportunistas. Ainda que prevaleçam algumas boas idéias, são sucumbidas pelos acordos espúrios arranjados sorrateiramente.

É preciso reestruturar o conceito da política. Envolver o coletivo nesse processo. Tornar o eleitor parte real da reconstrução. Porém, para isso, é preciso demonstrar princípios e coerência. Ouvir a voz das ruas e entender suas intenções.

Trilham por velhos e equivocados caminhos os que empunham um poder passageiro e socam a mesa acreditando possuir condições de decidir da forma que melhor for conveniente.

Muitos não têm a mesma postura diante das negociações que incluem vantagens pessoais. Dos acordos que permitem nomear parentes, partidários e amigos. Curvam-se diante do controlador do orçamento e esquecem ou desconhecem que a fiscalização do efetivo cumprimento da norma orçamentária é de sua responsabilidade.

Ainda há tempo para rever a proposta. Evitar o desgaste desnecessário. Ainda é possível anular o discurso vazio do suposto aumento da representatividade política. Quantidade não determina qualidade. Falta apenas aos presidentes dos partidos que assinaram a proposta e os vereadores que a apoiam, entenderem isso. A população já entendeu.

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Filiados ou apenas estatística?

Pasmem, senhoras e senhores, o Brasil tem mais de 15 milhões de pessoas filiadas em algum partido. Não estamos assim tão alijados de representatividade. Ou não estaríamos se a maioria dessas pessoas soubesse o que representa assinar uma ficha de filiação.

Politicamente muitos são apenas analfabetos funcionais. Não têm capacidade para interpretar os conceitos da política e dos próprios partidos. Sabem que pertencem a uma agremiação, alguns até participam de reuniões e aceitam as convocações para as campanhas. Outros emprestam assinaturas para que novos partidos sejam criados.

Existem ainda aqueles que veneram os eleitos e permitem que eles se comportem como se pudessem, isoladamente, encarnar a vontade coletiva. Ignoram o encastelamento e o fato de que representantes distantes também se afastam da compreensão sobre as reais necessidades da população.

Silenciam quando seus eleitos passam a integrar a estirpe que usa escudos partidários para defender os próprios equívocos. Permanecem passivos diante dos jogos de interesses que cercam os cargos.

Diante da abissal complacência dos partidários, oportunistas podem então render-se ao fisiologismo e descumprem os estatutos em nome do fortalecimento da sigla. E o fazem pelo “apedeutismo” político daqueles que deveriam exigir coerência, mas que são incapazes de extrair o sentido das normas que regem a própria agremiação que integram.

Outros, simplesmente, esquecem que um dia adotaram uma sigla e passam a fazer parte das listas divulgadas pela Justiça Eleitoral. São somente dados estatísticos.

Existem ainda aqueles que se infiltram em novos partidos como garantia de manutenção dos cargos ou, pior, o fazem para conquistá-los. Não possuem compatibilidade política ou ideológica. Querem apenas as benesses ou a proximidade com o poder.

Neste cenário, adversários se alinham. Partidos são convertidos em corrimãos. Críticas pessoais, que transformam adversários em inimigos, são varridas com a vassoura da hipocrisia.

Resta muito pouco do radicalismo romântico dos defensores de bandeiras verdadeiras. De siglas consistentes. Definha a força daqueles que não admitem a defraudação e que se opõem aos embusteiros que permanecem inseridos e arraigados em seus próprios princípios.

Para a maioria dos políticos, não há mais lado. Existe apenas conveniência pessoal travestida de interesse partidário.

Mas, ainda poderia existir uma esperança. E ela está diretamente relacionada a boa parte dos 15 milhões de brasileiros filiados em um dos 29 partidos em atividade. Essa multidão é capaz de provocar uma revolução silenciosa e expurgar o chauvinismo dos discursos partidários que, quando traduzidos, pretendem apenas a ascensão ao poder.

Mais cedo ou mais tarde, essas pessoas descobrirão que são capazes de mudar a política mudando o comportamento dos políticos e fortalecendo os partidos. Já será um bom começo.

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